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Obituário de Millôr Fernandes (revista 'piauí', abril)

Pôr do sol em Ipanema Humor do Méier ao Arpoador por MARIO SERGIO CONTI Numa conversa de fim de noite, falou-se de morte. O tom era sorumbático até que Millôr Fernandes, com mais de 80 anos, contou como desejava que fosse a sua: “Quero morrer com três tiros no peito, disparados pelo surfista que me pegou na cama com a namorada dele.” O chiste é engraçado e verdadeiro: ele queria morrer no auge, numa delinquência safa e na contramão dos bons costumes. O senso comum recomenda que octogenários fiquem em casa de bermudão, tomando sopinha, vendo o Faustão e dispensando conselhos dispensáveis às jovens gerações. Já Millôr queria se entreter – e aprender – nos braços de uma beldade em flor vinda da praia. Morrer assim seria bom. A conversa foi num restaurante na praça General Osório, perto do seu estúdio e a algumas quadras do seu apartamento. Tudo em Ipanema. Millôr não era brasileiro, sequer carioca. Era um ipanemense que sentia saudades da beira-mar já na Via Dutra, ele dizia, adaptando ...

Garotos-problema: Martha Marcy e Kevin

Dois filmes no final de semana de Páscoa e descanso e roupas limpas depois de horas sofrendo à beira pia: Precisamos falar sobre o Kevin e Martha Marcy May Marlene . O primeiro é bem tristinho. Triste de ruim, sem abalos, cheio de excessos, estilizado (no mau sentido), uma direção rasa. Horário da sessão de arte uma pescoçada: 10h45min do sábado. Todavia, Tilda Swinton, inabalável, uma monstra. O contraponto é a dupla que faz Kevin pivete e Kevin jovenzinho. São tão ruins quanto a repetição da textura vermelha em alusão – óbvia - a sangue e chacina (a mãozinha do diretor acenando, very cool ). Pior cena em muito tempo: Kevin jovenzinho apronta com a irmã pequena – um lance diabólico. Família reunida na hora do café, o garoto se diverte mastigando lentamente o sumo carnudo de uma fruta que parece pitomba, mas é outra coisa. Grande sacada – me digam depois. Já a ideia-base de Martha... parece ter sido esta: vamos fazer um filminho descolado com final abrupto e elíptico. Antes, in...

Soldado em terracota

Como de hábito, enquanto esperava o café considerou tantas coisas, mas nenhuma verdadeiramente importante, nenhuma tão a sério a ponto de requerer carga superconcentrada de atenção. Além do café, aguardava também uma porção extra de coragem. O café finalmente chegaria; a coragem, não. Talvez houvesse uma palavra sem contornos, mas exata, uma palavra que seria apenas sua, minha, e também dela, repleta de sentido, um desses nomes-fantasia que resumem a missão da empresa, traduzem em publicidade seus interesses e impõem o consumo irracional dos seus produtos. Mas, sabia, essa palavra ainda não existia. Imaginava tudo mais fácil, tudo diferente, tudo de outra maneira, cada palavra que se seguiria a outra, formando sentenças estruturadas segundo uma lógica que respeitasse formalidade e beleza, um conjunto harmônico, mas também caótico. C oncluía após tanto tempo: parte do problema é desejar manter-se atado ao problema. Porque fracassará todo o projeto cuja base for a busca apai...

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Confesso ao abismo Apresso-me a dizer que fui errado na maior parte do tempo, tomando por errado o agir em desconformidade com o que se espera, a moral em voga, aceita ou não pela maioria, acrescento também não haver cogitado seriamente proceder de modo variado quando me vi ameaçado ou quando meus interesses estavam em jogo, dito isso, vejam que coisa, parece até fui o mais danoso dos tantos infames que me cruzaram o caminho, ora, longe disso, de memória serei capaz de recordar dois ou três mais destacados cujas realizações superam as minhas em aspereza e danos ao próximo. De maneira que, se me ponho a falar, é, talvez, na intenção de purgar tardiamente esses pecadilhos para que não se engradeçam com o passar do tempo e também para que, chegando o futuro, não me atirem as pedras colhidas no passado, atividade a qual costuma se dedicar uma fatia social formada tanto por imbecis quanto por homens de inteligência acima da média, o que não deixa de ser fator de desalento. Dito isso, fa...

Farejando

A literatura me deixou , Luiz Schwarcz: Bem sucedidos são os autores que conseguem fazer de sua escrita uma confidência tão bem disfarçada que sua expressão se torna universal. É o que acontece quando lemos um livro e não percebemos o quão pessoal é tudo o que está no papel, ou, ainda, quando achamos que, na verdade, aquela história é mais nossa que do próprio escritor.