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Paradigma Beltrão-Sabatella

I . Café da manhã ERA NATURAL que se apaixonasse por Andrea Beltrão, mas não o contrário. Tanto que, a certa altura, embora ainda fosse caído por ela, e entendo por caído uma total devoção de afeto geminada com indisfarçável vontade de saber-lhe fatos da vida, repito: embora ainda fosse lato sensu caído, Andrea não era por ele, no que, presumo, não haja lá grandes surpresas. Ocorre que assim permaneceram por muito tempo. Na verdade, estão nesse pé até hoje, quando, mesmo alimentando sentimento igualmente denso, diria mais que denso, o sentimento é irreprimível e cheio de uma pureza incomum em dias de relacionamentos cujos marcos regulatórios são brevidade e superficialidade (ver Bauman), ele encontre razões para deixar provisoriamente de lado esse brinquedo, e aqui me refiro ao amor impossível, e dedicar-se a algo que o faça verdadeiramente feliz, e nesse trecho especial me reporto ao amor plenamente possível. Clara oposição de ideias que não dilui a complexidade, só a expõe. ...

Bang Bang

SEM ÁGUA NO FIM DO TOBOÁGUA Panóptico Está sentado e finge desafetação quando na verdade é apenas mais um afetado na livraria. Tem um livro nas mãos, Gonzos e Parafusos , aquele de capa lustrosa, branca, com título em alto relevo, cuja autora passou dias enfurnada num cubo branco sendo alimentada por amigos e familiares. Sabe disso porque leu nas páginas dos cadernos de cultura. Viu Rubem Fonseca estendendo a mão num gesto falsamente caridoso. Acompanhou o debate estéril que se seguiu ao happening. Hoje, quem se lembra? Veste camisa de mangas compridas dobradas na altura do cotovelo, calça jeans e sandálias de couro. Está sentado no sofá da livraria. Fica rente à escada que leva ao pavimento de DVDs e CDs. O pavimento jamais freqüentado. Porque ele é um homem das letras, não da música, e sente orgulho de pertencer a esse universo. É algo distintivo, como a marca de Caim. Ali, enquanto sente leve incômodo sempre que alguém sobe os degraus da escada e faz o sofá trepidar, assist...

A musa da macharada

NOTA>>> E foi assim, dissertando sobre o borogodó do deputado federal potiguar & escritor & galã legislador Fábio Faria, que marquei estréia nas páginas da revista querida Playboy (edição de março, Michelly na capa). O texto foi publicado na seção Happy Hour , que trabalha humor e jornalismo autoral. Comprem a revista, leiam a matéria, vejam as fotos, que estão lindas. Façam o que não fizeram na adolescência sempre que dispunham de uma Playboy nas mãos. Abaixo, a íntegra da marmota. O QUE FÁBIO FARIA TEM? Henrique Araújo Peguem a cabeleira basta de Andrea Pirlo, galã e meio-campista da seleção italiana. Em seguida, acrescentem a sensualidade de um Ricky Martin cuja imagem de macho alfa não tivesse sido arranhada nem um milímetro depois da ruidosa admissão pública: “Eu sou”. Finalmente, levem a mistura ao forno, mas não sem antes incluir na receita o charme e a fotogenia do espanhol Javier Bardem. Conseguiram imaginar? É evidente que o deputado federal potiguar Fá...

O clima de paquera e azaração

FATOS DA SEMANA FATO 1 Era a mesma história, tinha essa certeza toda completinha que temos durante as madrugadas. Era a mesma história, repetiu, mas agora deslocada no tempo e no espaço por um roteirista que soubesse de antemão, “o público necessita ração similar à que costuma pôr goela abaixo diariamente”, cogitou sabendo-se meio frankfurtiano, que é um modo de dizer mais ou menos assim: uso um jargão político para demonizar cujas referências, não lidas, é verdade, sequer entendidas, posso enumerar. Como se dissesse: eu, o inimputável. Bom, e daí? FATO 2 De maneira, deixe-me ver, acentuadamente cômica, levantou-se da cadeira e a convidou para dançar, e fez isso com um jeitinho de cabeça, aquele meneio que somente duas pessoas imersas de corpo&alma em processo de aguda erotização visual, esse estágio imediatamente posterior ao do entendimento febril e assertivo e que antecede o lado dialógico da coisa em si, a coisa em si conforme estudo breve mas profundo sendo ela mesma au...

Microensaísmo de quinta

O INTELECTO CONTRA O BAIXO ASTRAL Francis Santiago É fato: a imagem do programa de polícia comunitária Ronda do Quarteirão não é mais a mesma. Se antes os PMs-delleuzianos ganhavam coxinhas, porções de baião com queijo, enroladinhos de salsicha e outros acepipes em várias cadeias de lanchonetes e churrascarias da periferia de Fortaleza, agora são tratados a pão e água. Tudo fruto dos recentes destrambelhos dos homens da farda azul-bebê, desenhada por Lino Villaventura num momento de extremo deleite intimista, mas sem qualquer preocupação com a moral da força policial frente à viril bandidagem. É fácil entender por que uma parcela dos jovens soldados do Ronda, que deveriam substituir a beligerância priápica dos antigos policiais por uma abordagem que conjugasse a maciez do colo materno à rígida educação paterna, caiu, senão no descrédito, num limbo escuro e frio. Não foi da noite para o dia, nem de uma hora para outra. Tampouco atingiu a totalidade da corporação, que ai...

Síndrome do calango febril

NOTA >>> Este ensaio de ensaio, ridículo em sua pretensão acadêmica, foi escrito em abril de 2010, em meio à famosa crise editorial que abalou o mercado cearense. O tsunami foi fartamente comentado em blogs e mesas de bar. À época, diversas teorias surgiram com o fito expresso de explicar a crise que nos havia tragado a todos e que parecia demorar-se uma eternidade. Apenas alguns poucos nomes foram capazes de enxergar maledicência onde havia somente molecagem e somente molecagem onde havia falcatrua da grossa. Ora, que se danem! O texto, elaborado por mim em momento de fraqueza espiritual e dormência física, não goza de fortuna crítica das mais dignas. Ao que consta, foi publicado na REVISTA AEROLÂNDIA , de quem jamais vi um centavo em troca. Boa leitura! POR QUE ELES NÃO TOCARAM NO ASSUNTO? PARTO DUM questionamento sobremaneira atroz: o que de concreto escreveram Tobias Barreto, Capistrano de Abreu, Floro Bartolomeu, C.S. Lewis, Artur Bela Clava, Santo Fiorrizheh, Oswald B...

Joelho (paradigma Law-Winslet)

N ão, me desculpe, mas jamais desejei amor gratuito, tranquilo, livre de traumas. Como um joelho que chegasse aos 13 anos sem machucões. Francamente, duvido que seja assim como dizem. De qualquer maneira, é diferente, não incomoda tanto quanto outro tipo de sentimento, aquele tipo que requer mais habilidade, paciência e estômago para giros completos na montanha russa. O tipo que faz você rejeitar o café da manhã e ignorar solenemente as atribuições que lhe competem na empresa. É, ainda sou disso. Não, passei muito tempo preocupada em divertir meu irmão sendo sua parceira no PS 2. Cresci verticalmente. Admito: não gosto desse tipo específico de sentimento – imaginem uma fala pausada, com acento irônico despejado sem razão especial em “sentimento”. Tem sempre o casal do filme. Ele vive provações semelhantes às vividas por nós. Como se cultivasse uma eterna juventude, engata uma via-crúcis na outra, sem encontrar sossego, que só vem no final, claro, quando os dois a) se separam, e o re...