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A EXPERIÊNCIA

Curioso. Não acredito em monstros. A Fátima, do Jornal Nacional , sim. Toda noite, ouvimos a linda jornalista e mãe de trigêmeos dizer com todas as letras: O monstro, referindo-se ao camarada que manteve a filha aprisionada durante duas décadas. Nesse tempo, Fritzl, o austríaco sem rosto, seviciou a menina – que depois virou moça - de todas as formas. Teve sete filhos. Negligenciada, uma das crianças morreu. Foi isso mesmo? Estou tentando relembrar o caso. Li muito pouco sobre ele. Ainda assim, não creio que Fritzl se pareça com qualquer monstro. Não com os monstros que costumam assustar. Tirando aquelas sobrancelhas peludas e despenteadas e os olhos de lobo, ele é até simpático. E é mais parecido com qualquer um de nós do que gostaríamos de admitir. Estou falando sério. Tanto que vou mudar de assunto. Como foram de domingo? Ontem fiz a costumeira reprise de Blade Runner . Não faço hoje novamente porque tenho medo de cansar. E não quero me cansar de ver esse filme. Nunca. ELE É meu fil...

BREVES III

Ontem encontrei uma velha no Centro. Digo velha mesmo, sem frescuras. Nada de idosa ou senhora muito velhinha. Velha e pronto. Estava encostado num poste. Precisamente: esperava o ônibus escondido na sombra mínima que esse poste projetava. Estava bem próximo da base. Além de mim, havia outras seis pessoas distribuídas ao longo da sombra. Até acabar. Uma delas era a velha. Estava bem ao meu lado. “Olha”, disse. Eu ouvia música. Os ouvidos tapados, a cabeça noutra dimensão. Ouvia alguma coisa melosa, romântica. Pra combinar com dias tão quentes e melosos. A cabeça tinha sido varrida por uma caminhada de dez quarteirões da praça do Ferreira até ali. Havia fumado também. Não costumo fumar, mas, por algum motivo, comecei há dois dias e até agora é o que tenho feito. Olhei. Era uma árvore. Uma plantinha que nascera sobre a fachada de uma ótica. Estava ali, como se alguém a tivesse plantado exatamente naquele lugar. Tratei de imaginar a coisa. Alguém plantando a árvore sobre a superfície nada...

NOVA FOME

Sentia fome. Não sabia de onde vinha, por que sentia. Apenas tinha fome. Uma fome original. Comida. Nada a ver com a antropofagia, cultura subdesenvolvida. Era fome mesmo. Não podia escrever, não podia ler, não podia ouvir música. Não podia nada. Se lhe pedissem “Escreva um resumo da história romana” ou “Calcule a raiz quadrada de 64”, nada. Era fome. Uma coisa ancestral. Nada a ver com Glauber Rocha, Ferreira Gullar, Mário de Andrade, Caetano Veloso. Resistência, política, guerra fria, brigadas vermelhas, exércitos zapatistas, forças armadas, comando de caça ao que quer que fosse, revolta, motim. A única rebelião que conhecia era a que vinha do estômago. Apenas fome. Doendo na barriga. Das 14 às 17 horas, na hora da aula, não conseguia aprender nada. Das 17 às 20 horas, no cursinho de inglês, nada novamente. Das 20 às 22 horas, enquanto voltava pra casa, nada. Em casa, no quarto, na sala, absolutamente. De frente para a televisão. De frente para o PC. Nada. Nada até as 23 horas. Quand...

BREVE II

Hoje é 19 de março. E não choveu. Ao contrário: faz calor até agora. Um clima abafado sufoca todo mundo. O único refúgio é a calçada. Nas ruas, rodas se recuperam, o vento da noite enxuga o suor da cozinha. As mulheres respiram, as crianças correm. Os maridos fumam. Acabo de fumar. Um cigarro. Nada de maconha, nada de sálvia. Fumei cigarro industrial. Uma coisa legal. Vendida na esquina. Gera emprego. Décimo terceiro salário, peru de natal, ovos de páscoa. Férias. Algo definitivamente domesticado. O cigarro é um evento social. Um encontro. Fumando, você se sente melhor. O cigarro faz bem. O gosto ruim na boca depois é apenas detalhe. Um cigarro apenas. E o gosto. O sabor. A impressão: mastiguei um pedaço de carvão. Mordi o rabo do capeta. Beijei o demônio, que soprou seu hálito na minha boca depois de aspirar toda a minha humanidade. Tudo isso em apenas um cigarro. Tudo mesmo. Ocasionalmente, o cigarro mata. Aquelas pessoas atrás da embalagem que o digam. Infelizmente, elas ficam de co...

BREVES

Voltei. Não gosto do branco. É excessivo. É redundante. Diz tudo, não diz nada. Cega os leitores. Daí os sumiços? Talvez. Aqui me sinto em casa. Marrom. Gosto de marrom. Não sei como as palavras ficam, mas no meu monitor tudo é mais bonito. Tudo escuro. Melhor: meio tom. Nem claro, nem escuro. Falo depois. Estou ocupado com a pequena derrocada de sentimentos. Sou um homem aturdido. Sou um homem cansado. E tenho o dedo indicador direito em riste. Pra sempre. Apontando quem passa. Descubro espantado: a carne inflama. Sejam bem-vindos novamente.

Uma valsa na Esquina

Aqui , SOS Gramatical , publicado na revista piauí . Não me perguntem se estou contente. Claro que estou. Claro que bebi quando me responderam dizendo que o texto finalmente havia sido aprovado. Claro que exultei quando a equipe responsável pela edição da Esquina registrou em poucas palavras: “Fique à vontade pra enviar novas pautas”. Claro que fiquei animado com as 800 pratas que vou receber. Quando receber. Ontem assisti Valsa com Bashir . Resumo: vocês gostaram de Persépolis ? Valsa é melhor. Podem crer. Não exatamente melhor. Objetivamente, talvez não seja. Quer dizer, narrativamente... é mais atraente. Mas, se querem saber: o filme é realmente melhor. Você sente isso da mesma forma que sabe que está apaixonado por uma garota quando ela passa e simplesmente olha pra você e sorri. Apenas sorri. Você sabe no ato. Ela não faz outra coisa. Ela cruza olhar com olhar. E sorri. Pode ser apenas um riso despretensioso. Um riso de amigo. Mas você está ali, caído. E Valsa faz isso. No mais,...