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UM META-DISCURSO PSEUDO-AUTO-INDULGENTE or something like that

Expressão-chave: foda-se. Mil perdões: escrevo com sono. Faz tempo enrolo sentado aqui no PC. De frente, nada mais. Na verdade estava esperando que os olhos desgrudassem depois de ter visto três episódios seguidos de “Lost”, mas acabou que eles continuam embaçados. Agora, enxergo as letras como se elas tivessem sido bombeadas através de extensos canudinhos de fumaça e postas bem diante do meu nariz vermelho. Não de palhaço. Fomos aos terminais. Ontem, Conjunto Ceará. Querem saber? Não falamos a mesma língua – eu e os camaradas e nós e os “hostis”. Chamo “hostis” às gentes que costumam freqüentar os terminais não porque em um dia de muito sol e brisa, um dia tipicamente estimulante ao nascimento de idéias geniais e ações politicamente engajadas em qualquer projeto social de mudança para melhor da sociedade – não porque em um dia como esses tenham súbita e encantadoramente decidido ir conhecer os terminas na madrugada, ver como são bonitos, tão cinzas à luz da Lua, tão sombrios e estetic...

Ainda

1979 FOI UM ANO RUIM PROPRIETÁRIA DA ANTIQUÁRIO , BANCA DE LIVROS QUE FICA NA PARQUELÂNDIA, DONA SOCORRO CARNEIRO CONTA COMO, À SEMELHANÇA DO PERSONAGEM CRIADO PELO ESCRITOR FERNANDO SABINO, “FEZ DA QUEDA UM PASSO DE DANÇA” “Por favor, queria só que você acrescentasse uma coisa. Diga que, a cada frango que eu matava, um pedaço de mim morria junto.” Dona Socorro Carneiro de Morais, 66 anos, por telefone horas antes do fechamento da edição de domingo Henrique Araújo>>>Especial para O POVO Fosse um brinquedo, dona Socorro certamente seria um Lego, aquele jogo cujas peças podem formar qualquer coisa, apenas montando-se ou desmontando-se as formas assumidas anteriormente e empilhando-as em seguida para que desenhem o que se queira. Feita de pequenos pedaços de si, um dia Socorro Carneiro de Morais viu seu pequeno castelo vir abaixo. Entre 1979 e 1989, as partes fixas que sustentavam seu mundo foram minadas e, sem forças, ruíram. Com elas, uma vida dividida entre o morticínio de f...

À MEIA-NOITE, NO TERMINAL

Quem ainda não leu, pode ler aqui . Volto até o final do dia. Isso é uma promessa, eu juro. As palavras se me acumulam, os poros se me entopem, os pensamentos se me avolumam como nunca dantes visto. Sou todo domingo. ATENÇÃO: HOJE TEM LANÇAMENTO DA REVISTA CADEIRA COM RODAS E DO DOCUMENTÁRIO O CONTO TORTO DO OLHO , NO TERMINAL DO ANTÔNIO BEZERRA, À MEIA-NOITE. COISAS DERRADEIRAS DO GRUPO TREMA... NÃO FALTEM! E viva Campos de Carvalho! No mais, me contem como foi seu dia, sim?

Notas de um velho sentado

Sabem desta? “Qualquer coisa que se mova é um alvo”. Qualquer coisa. Como já dizia o grandíssimo poeta Chorão, “Eu não sei fazer poesia - mas que se foda”. Caras, caras... Eu não estou lá. Muito menos aqui. Jesus Cristo poderia ter tido isso. Acordei sem fome, nada no estômago, mas inteiramente e epifanicamente sem fome. Logo descobriria: desarranjo. Uma coisa. Gosto de ler isto aqui . Muito. Desarranjo é algo incômodo à beça. Mas fico melhor até amanhã. Pensei que fosse morrer. Pensei que tivesse algo estranho na minha barriga, algo estranho, algo que se move enquanto abrimos lindamente a porta da geladeira e retiramos de lá um copo de leite. Leite do dia anterior. Pensei que contivesse nas minhas entranhas a nuvenzinha negra que passeia matando as pessoas numa ilha qualquer abaixo de tudo que jamais intuímos. Pensei que só agora o giz que engoli na terceira série houvesse começado a se manifestar. Só agora, tanto tempo depois, ele tivesse passado a riscar as paredes do estômago, inun...

Os CÓS de quem?

Bom, ela está bem. Eu também. E vós, como andais? Ligeiro que o andor é de barro. A segunda passou, a terça também. Breve a semana inteira passará. Incrível como o tempo passa mesmo a contragosto. Mesmo a conta-gotas. Nada, por enquanto. A segunda temporada também passou voando. Começo a terceira. Comprei livros, revistas. Saí, bebi. Comi. Babei sorvete. Fui ao Tangolomango. Demitido, mas fui. Adorei o espetáculo, os tambores reverberando. As meninas do grupo venezuelano sacudindo-se, ensinando às brasileiras como se rebola em espanhol. Nunca tinha visto nada parecido com aquilo. Nada. Claro que perdôo os adolescentes que pareciam estar no Ceará Music. Tem isso em qualquer lugar, gente boa. Em qualquer lugar, em qualquer época. Começo a concordar com um sábio chinês que, a propósito de qualquer coisa, dizia: “A juventude é uma doença”. Sem cerimônia, acrescentava: “Mas tem cura”. E minha irmã evangélica ao lado achando que tudo era coisa do Demônio, que a velha de seus oitenta anos no ...

Novamente o mesmo ovo

Vi na televisão. Um candidato a vereador em alguma cidade perdida do Brasil. Que dizia aos gritos: “EU VOU MORRER TENTANDO! EU VOU MORRER TENTANDO!” Não costumo escrever e publicar aqui duas vezes no mesmo dia. Nada cabalístico, entendam. É que o volume de compromisso – leia-se desleixo – impede. Mas isso pedia algo. Digamos, algo à altura. A seguir, o conto de domingo. Boa leitura. 11 POR 29 Henrique Araújo Desceu. Vestia-se campanha. Broches, adesivos, bonés, faixas, pulseiras e bandanas. Atrás uma cordilheira de cabos disfarçados de amigos “Vamos ao society”. Na verdade resguardavam. Projetavam: equipados com portentosas caixas de som, projetavam obviamente um grito de guerra — “ONZE: AO INFINITO E ALÉM!” — bastante sonoro. Bastante quer dizer suficientemente sonoro. Suficientemente, que o brado podia ser ouvido sem perda de qualidade alguma nas bordas de qualquer buraco negro da galáxia XP-166/19997. Qualquer um deles. MESMO O MAIS NEGRO?! Mesmo o mais negro... Dentro dos veículos:...

Reparem na água, apenas na água e nada mais

Sem mais que fazer, leio um texto publicado este mês na REVISTA . Trata-se do discurso de paraninfo do escritor-enforcado David Foster Wallace. Antes de se enforcar, obviamente. Vou ler. Qualquer coisa, comento. Vejam que ótimo: Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Tem mais: Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. Por fim (não pensem nisto como um fim propriamente, mas como um intervalo entre as novelas das seis e das sete): Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio d...