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UM META-DISCURSO PSEUDO-AUTO-INDULGENTE or something like that

Expressão-chave: foda-se. Mil perdões: escrevo com sono.

Faz tempo enrolo sentado aqui no PC. De frente, nada mais. Na verdade estava esperando que os olhos desgrudassem depois de ter visto três episódios seguidos de “Lost”, mas acabou que eles continuam embaçados. Agora, enxergo as letras como se elas tivessem sido bombeadas através de extensos canudinhos de fumaça e postas bem diante do meu nariz vermelho. Não de palhaço.

Fomos aos terminais. Ontem, Conjunto Ceará. Querem saber? Não falamos a mesma língua – eu e os camaradas e nós e os “hostis”. Chamo “hostis” às gentes que costumam freqüentar os terminais não porque em um dia de muito sol e brisa, um dia tipicamente estimulante ao nascimento de idéias geniais e ações politicamente engajadas em qualquer projeto social de mudança para melhor da sociedade – não porque em um dia como esses tenham súbita e encantadoramente decidido ir conhecer os terminas na madrugada, ver como são bonitos, tão cinzas à luz da Lua, tão sombrios e esteticamente apreciáveis. Não, eles não. Vão porque do contrário ficariam nas ruas, sem ônibus.

Lembram aquela camisa estendida no arame que envolve o terminal num grande abraço espetado? A mesma que encerra o vídeo. Ela realmente estava lá.

Como um garçom que entrevistei no Conjunto Ceará ainda nos primórdios da revista. Voltava do trabalho. Estava cansado, quem sabe exausto. Sentado, descalçou um sapato e escorou o braço no joelho. Fez que tivesse paciência infinita. Ali, parecia uma coluna ou um cesto de lixo. Totalmente integrado ao ambiente. Nós, não. Era texto. Não garçom, mas texto-garçom. Assim como há o garçom-imagem. O garçom-discurso (o garçom como pré-projeto aprovado e orçado para o próximo edital, sacaram?). O garçom, ele mesmo, fica perdido. Perde-se bem cedo, bem antes de se formularem as intenções.

COMO O FETO ABORTADO NA CABEÇA DO PAU DO PAI.

Conversamos. Sentia-me próximo dele e de todos os outros. Meu pai é garçom, minha mãe cabeleireira. Meu irmão um jovem de vinte e um anos que aprendeu a lutar e quer agora ser ou segurança de carro-forte ou barman, o que pagar mais e lhe permitir seguir estudando para o concurso da Guarda Municipal. Minha avó materna morou parte da vida numa favela perto do Pan-Americano, bairro bem pobre de Fortaleza. Algum de vocês conhece esse bairro? Minha avó paterna também. Eram praticamente vizinhas. À exceção de um e outro, meus tios de ambas as partes são pobres. Um deles é gari, outro galego. Uns tantos, policiais. Do núcleo endinheirado, do tipo que comprou carro e viajou muito antes de pensarmos em ter uma casa própria: um é bancário formado em matemática e o outro bancário formado em matemática. Então são dois tios bancários formados em matemática. Um do Banco do Brasil e outro do extinto BEC, Banco do Estado do Ceará.

Aos cinco anos, pescava num córrego nessa favela onde moravam as avós. Era divertido enlamear-se por lá, jogar bila, trocar insultos com as crianças que um dia se tornariam os grandes bichos-papões da malandragem. Acho que nunca havia dito isso aqui. Talvez alguns dos meus diletos leitores-fantasmas (aquela massa de meia-dúzia que lê às escondidas e nunca comenta) se assustem. Talvez. A verdade é que sabia a história antes mesmo de conhecê-la. Porque tenho frescas na memória as noites em que fui acordado de madrugada por meu pai para beliscar um frango à parmegiana ou um peixe à delícia com arroz trazido numa quentinha do restaurante onde trabalhava, na Beira-Mar. Isso mesmo, gente boa. As sobras dos ricos nos alimentavam naquelas madrugadas. E era maravilhoso. Não nos faltava comida, entendam. Mas, se fôssemos pagar por aqueles pratos...

Por que estou dizendo isso? Para que tenham sempre em mente: entre nós, há dez toneladas de informação não-compartilhada. Tenho alguns programas que simplesmente não rodam no sistema operacional de vocês, amigos. Isso nos impede de nos entendermos? De certa forma, sim. É curioso que só agora esteja dizendo isso.

Não lavo roupa suja. Não aqui, não a essa altura – do campeonato e da noite. O que digo vale não apenas para as últimas semanas. Vale não apenas para você e – não se esconda de mim, engraçadinho – você aí! Vale para muita gente. Vale para a faculdade inteira ou quase. Vale até os cinqüenta anos. Vale para a minha irmã, que agora se casou, tem filha, paga o aluguel caro num condomínio e anda num carro bom. Vale para os meus pais, que têm evitado me visitar com a mesma freqüência com que a visitam. Estranhamento não é a palavra. Não apenas. Mas gosto de pensar: afinal, o que temos em comum?

O que temos em comum além de certo gosto pelo mesmo time? O que temos em comum além do jornalismo? O que temos em comum além de freqüentarmos o mesmo curso de graduação? O que temos em comum além de curtirmos literatura? O que temos em comum além de muitos dias sentarmos lado a lado e darmos umas boas risadas na hora do café?

A resposta talvez seja esta: nada.

Se pudesse, teria escolhido ser mais parecido? Sim ou não? Escolha difícil. Se pudesse, escolheria: acho que todo mundo deveria fazer estágio nas camadas inferiores. Sério. Uma existência como cobrador de ônibus, outra como milionário, outra como prostituta, outra como professor, outra como presidente da república, outra como deficiente, outra como cientista e por aí vai. Até sermos capazes de verdadeiramente constituir uma base mínima de decência. Ou como queiram chamar essa coisa básica. Dignidade? Não. Desprendimento? Muito religioso.

PELA SEGUNDA VEZ NA SEMANA ME DEPARO COM ALGUMA COISA QUE PRETENDO DIZER MAS PARA A QUAL NÃO FOI INVENTADA UMA PALAVRA.

Acaba que fiquei um tanto melancólico. Preciso ler David Sedaris. Mas emprestei e não tenho previsão para reaver o livro. Quero ler outro David, o Foster Wallace, mas este se matou talvez porque não acreditasse mais nas gentes. Encomendei o livro. Chega ainda esta semana. Um amigo, pago à vista.

É isso que chamo de “experiência estendida”.

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