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A música certa

A música certa no momento certo é uma raridade, coisa como o cometa Halley. Vem a cada cinco ou cinquenta anos. É um evento bissexto. Resultado do encontro de variáveis esquisitas, imprevisíveis, a música certa é um acontecimento na vida de qualquer pessoa quando a vida de qualquer pessoa está passando por um momento esquisito que requer explicações que ninguém sabe dar. Exceto, é claro, a música. A certa. Mas, por razões incertas, não se chegou ainda a uma razão para que, num dado momento, sob condições X e Y de temperatura e pressão, uma música qualquer se encaixe de tal forma à sua (nossa) vida, dialogando com as vicissitudes daquele momento específico, assombrosamente prevendo coisas que estão acontecendo agora e misteriosamente predizendo um futuro que ainda não chegou. Nem sempre a música certa é certa porque acerta tudo que diz. Às vezes, é certa porque está no lugar certo e na hora certa. Vejam o caso da música errada, essa música certa que esqueceu de acontecer. ...

Looping

Isso

O que é que a gente faz? A gente olha prum lado, olha pra outro, vê alguém sorrindo e sorri, olha pra frente, pra trás, se pergunta se faz sol ou chuva, lamenta a morte, chora a dor, penteia os cabelos, se perfuma e se programa, escolhe um filme no Netflix e desiste na metade. A gente abre uma aba no computador e fecha uma aba e reinicia a máquina e corta as unhas e ensaboa o cabelo e fuma um cigarro no banheiro porque não quer empestear o restante da casa.   A gente instrui o taxista a entrar por uma rua e sair por outra. E depois bate a porta. E atravessa uma rua. A gente dá bom dia, boa tarde, boa noite e resmunga baixinho um seja o que deus quiser enquanto sobe as escadas.    A gente atende ao telefone, desliga o telefone e esquece o telefone. A gente quer saber se é isso mesmo. É isso mesmo. A gente passa, então, a gostar disso mesmo, a celebrar isso mesmo, a inventar que isso mesmo é realmente isso mesmo. E talvez seja. Mas a ge...

Armas da infância

Todas essas charges são bonitas e comoventes, mas há um quê de impotência nisso tudo que azeda lá no fim. Quero gostar e me enternecer. Quero até chorar junto. É um modo de catarse coletiva. Serve mais aos vivos que aos mortos. Esbarro na agonia de saber que não passa disto: um gostar e enternecer com prazo de validade curto. Uma indignação perecível. Dura até a semana que vem ou antes. Fico pensando agora não na criança que morreu, mas nas que ficaram e no quanto elas ainda vão continuar à mercê da mesma tragédia, apesar de toda a dor e sentimentos de solidariedade que a morte de Aylan Kurdi causou no mundo inteiro. Chorar a morte e se indignar. Indignar-se com a falta de indignação. Hoje, quando cheguei em casa, minha filha dormia na mesma posição do garoto sírio encontrado morto numa praia turca: de barriga pra baixo, as perninhas inclinadas, o rosto enterrado no colchão do berço. Respirava devagar, as mãos estiradas e o peito subindo e descendo como um fole....

E se?

Escrevi na última quinta-feira, 13, a propósito das manifestações marcadas para 16 de agosto: “Sobre domingo: talvez nem tão grande quanto a manifestação de março nem tão pequena quanto a de abril. Apenas o suficiente pra manter o governo alerta. Mas, e se bombar? Muda alguma coisa? Mais pressão no Congresso, sobretudo na Câmara, que teria de esperar parecer do TCU pra tentar a única cartada em mãos: impedimento”. Esqueci de acrescentar: mais pressão também sobre a oposição, que, segundo declarações dadas ainda sob efeito dos protestos por uma de suas figuras mais proeminentes, é hora de unificar discursos, deixar diferenças de lado e abraçar a tese do impeachment. Se antes a bandeira do afastamento dividia os tucanos, fracionados entre o apoio a Aécio, Alckmin e Serra, hoje o discurso tende a se tornar mais homogêneo. A senha para a pacificação foi a dura crítica de FHC feita ontem. Para o grão-tucano, o gesto mais nobre da presidente hoje seria renunciar ao mandato. ...