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Uma cena

Tinha esse casal na praia. Vários casais, mas esse era especial. Estava perto da ponte antiga. A nova parecia lotada e de fato estava cheia. A velha continuava como sempre esteve, uma estrutura prestes a desmoronar, livre, viva como um animal antigo cujo nome ninguém lembra. Era um casal adolescente. Não se beijava, permanecia abraçado olhando pro mar. Passava das cinco? Passava.  Os surfistas aproveitavam as ondas, muita gente encostada na mureta esperando o sol descer para ir embora e colecionar mais um por do sol. Havia esse cheiro forte de pipoca e maresia, e o arrulho das pedras no fundo das águas rolando devagar pra lá e pra cá se misturava ao murmúrio vindo da caixa de som numa lanchonete. Uma música bonita, triste mas bonita, acho que da Roberta Miranda. O homem sentado pediu uma cerveja, depois bebeu e ficou acenando para alguém fora do quadro.    Não era Roberta Miranda, era uma música em francês e eu não entendo nada de francês. ...

Fiando-se

Desconfie de todo gesto sacrificial, esse que se reveste de uma áurea humana inatacável, que apela à oração mais íntima e se aninha num cadinho da alma tão escondido que acaba embolorando com o tempo. Desconfie da bondade, mas só da bondade que usa paetês e plumas e sai à noite fantasiada para chamar a atenção de quem passa – a bondade despida, crua, essa que usa chinela de dedos e come de colher, pode continuar a admirá-la. É verdadeira. Desconfie dos bons sentimentos, mas apenas dos bons sentimentos que pregam anúncio na porta de casa informando: vendem-se bons sentimentos. Desconfie de quem está sempre a falar do outro e quase nunca de si mesmo. Esconder o egoísmo, dissimulando-o ou tentando convertê-lo no exato oposto, o altruísmo, é tão ou mais escroto que admiti-lo. Tudo que é autêntico, até o egoísmo, é mais aceitável do que o falso, incluindo a preocupação. Desconfie de quem detesta gente desconfiada ou faz de tudo para não desconfiar. Desconfiar é u...

O adeus a Cid Gomes

Texto publicado na coluna Guéri-Guéri, no jornal O POVO, em dezembro do ano passado.  "É com um banzo indisfarçável que o alencarino vê aproximar-se o fim da era Cid Gomes.  Nunca antes na história do Ceará um gestor concluiu oito anos de governança colecionando uma lista interminável de episódios cujo denominador comum é a fanfarronice e a absoluta falta de pudor. Em dois mandatos consecutivos, período no qual o cearense redefiniu os conceitos de estripulia, Cid flertou com o abismo ao dar uma tainha do capô de um jipe e deixou a vergonha de lado ao saltar de tirolesa no Cocó. Sucessor no trono estadual, Camilo Santana terá dificuldades para ombrear os trabalhos do tutor. Terá coragem? Sobrará desenvoltura?   Do incrível voo da sogra, cartão de visitas do governador, ao bufê com bombinhas de camarão no Palácio Iracema , passando por shows para inaugurar equipamentos públicos, a gestão do engenheiro civil prodigalizou o que há de anedótico na política. Midas...

Letra

E para minha grande surpresa, lá pelas tantas, o Zambra fala de um trecho da música. Melhor, não fala, cita. E a música diz assim: vou andando pelas ruas, misturando as verdades com mentiras. E continua. Algo do tipo. Ali, no meio da confusão sobre cigarros, parar de fumar, continuar fumando, o prazer da recaída para quem ficou uns bons meses sem tocar no cigarro mas um belo dia então resolve que já é hora e de fato é. Ali, no meio, bem no meio, o narrador, que suspeito ser o próprio Zambra, fala da música, uma música bonita, diz que se sente um pouco assim naquele momento. Então fuma. É uma recaída. Não será a última. Coincidentemente, a música fala de outra coisa, mas outra coisa é sempre uma coisa parecida com a anterior. A gente fala outra mais por fé do que por necessidade. Na prática, a outra é a mesma coisa. O Zambra fala do cigarro e das tentativas frustradas de parar de fumar e da beleza do reencontro com essa outra coisa. É um dos contos de ...

Receita perdida

  Escutem essa. Um rosto e depois outro. E entre os dois um pouco de tempo, que é como que para untar. Como se untam as formas na hora do bolo. E mesmo assim queima. A gente esquece mais tempo no forno do que o permitido e quando vai olhar se surpreende que tenha passado mais do que os 45 minutos prescritos no rótulo da receita. Mais tempo do que o que seria agradável esquecer. E aí então um rosto e depois o outro ficam grudados, tostados, um no outro fixados à força porque alguém resolveu jogar a receita fora e deixar os dois mais tempo do que o previsto flutuando nesse calor do forno baixo. Até lembrar que já era a hora, alguém resolve esquecer, mas aí já não era mais hora. É a regra de ouro na matemática do esquecimento.