Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mensagem

Cada um com sua esquisitice.  A minha tem sido escrever no corpo da mensagem, como se enviasse um e-mail pra alguém, mas acabasse mandando pra mim mesmo. Leio como se escrito por outra pessoa e me assombro descobrindo esses medos familiares, que se alheiam no momento do envio e se aproximam quando, segundos depois, batem à porta.  Escrito, fora, lido, dentro. O alheio é assim, depois que sai, depois que vai. Mas, ido, sido, torna a ser o de dentro. Será que expliquei direitinho? Tem certas coisas evidentes pra gente que, vistas de longe, são nebulosas. Talvez essa seja uma delas.  Me explico. Abro uma aba do navegador, entro no Gmail e começo. Três parágrafos depois, apago da memória e envio. Fico esperando. De repente, a mensagem aparece, destacada das demais por um negrito. Posso ler agora ou deixar para depois. Posso deletar ou marcar com uma estrelinha. Depende do humor.  O bom disso tudo é que a mensagem é instantânea. Elimina a espera.   ...

Esse vórtice ciclônico, essa sangria, esses grunhidos

A gente morre

Cada vez que diz, a gente morre. Quando não diz também. Cada vez que falseia, mas quando autentica também. Sempre que revela, mas omitir também é morrer. Morre dormindo e acordado, amando e amado. Odeia, morre. Ama, idem. Morre se foi feliz, se foi infeliz também. Morre se evitou que outros morressem, morre se ajudou a matar. Morrer é irrevogável, sabê-lo é indiferente. Morre por ignorância, morre por conhecimento. Morre quando se evita e quando se procura. Ora, a gente morre, e ponto final. Morre na hora certa. Morre no cinema, na sauna, no colo da mãe, na parada do ônibus. Morre fora de hora. No sexo, na cama, subindo uma escada. Que coisa estranha é morrer. Mais estranho ainda é que se não acostume com isso. 

Puzzle

Olha, essa obrigação de concatenar pensamentos expressos em frases que, em conjunto, tenham um significado além do mero registro em dicionário, que digam mais do que um ajuntamento qualquer de palavras, a obrigação de afirmar com todas as letras isto é isto, aquilo é aquilo, de prolongar o que se resolve num parágrafo, achar que escrever mais seria uma forma de atenuar, essa compulsão em fazer sentido e com isso convencer os outros, a pretensão de se abrir em liquefeita razão, clarear as ideias como se clareiam os dentes, o desastre que é mecanizar a volta do ponteiro, a desgraça que também é relativizar tudo, a merda que todo mundo faz no momento exato em que aceita que da calçada pra fora a vida é esse jogo mesmo e que cabe a cada um jogar da melhor forma possível. Isso é o que estraga as pessoas. 

Transa

Iracema, a índia, vai completar 150 anos neste ano estranhíssimo no qual, embora nada pareça novo, ninguém pode duvidar que é. Logo, nos surpreendemos imaginando que a novidade não se define pelo novo, o que nunca aconteceu, mas por outra coisa ainda a ser descoberta. Vê todo santo dia uma Iracema na praia, morena maltratada que procura um gringo pra chamar de seu e acena e joga charme e esconde as pernas um pouco manchadas e cresce os olhos em quem passe. O mesmo sonho perdido do amor distante que chega de barco ou avião ou dirigindo pela BR. De repente é o tempo de Iracema. É atrasada? Descubro que não, que é mais como um desmazelo, um desamor continuado, e tudo que é desamor custa mais ao corpo do que ao espírito. Ou seria o contrário, e o corpo padece menos que o espírito, havendo espírito, claro, havendo corpo que o sustente e abrigue também. Estava aqui pensando alto, apenas.