Olha, essa obrigação de concatenar
pensamentos expressos em frases que, em conjunto, tenham um significado além do
mero registro em dicionário, que digam mais do que um ajuntamento qualquer de
palavras, a obrigação de afirmar com todas as letras isto é isto, aquilo
é aquilo, de prolongar o que se resolve num parágrafo, achar que escrever mais
seria uma forma de atenuar, essa compulsão em fazer sentido e com isso
convencer os outros, a pretensão de se abrir em liquefeita razão, clarear as
ideias como se clareiam os dentes, o desastre que é mecanizar a volta do
ponteiro, a desgraça que também é relativizar tudo, a merda que todo mundo faz
no momento exato em que aceita que da calçada pra fora a vida é esse jogo mesmo e
que cabe a cada um jogar da melhor forma possível.
Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...