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Javier Marías sobre romances

Escrevê-los permite ao romancista viver boa parte de seu tempo instalado na ficção, seguramente o único lugar suportável, ou o que o é mais. Isso quer dizer que lhe permite viver no reino do que pôde ser e nunca foi, por isso mesmo no território do que ainda é possível, do que sempre estará por ser cumprido, do que ainda não está descartado por já ter acontecido ou porque se sabe que nunca ocorrerá. O romancista realista, ou que assim é chamado, aquele que ao escrever segue instalado e vivendo no território daquilo que é e acontece, é o que confundiu sua atividade com a do cronista, a do repórter ou a do documentarista. O romancista verdadeiro não reflete a realidade, mas sim a irrealidade, entendendo por esta não a inverossimilhança nem o fantástico, mas simplesmente o que poderia ter acontecido e não aconteceu, o contrário dos fatos, dos acontecimentos, dos dados e dos feitos, o contrário "do que acontece". Aquilo que "só" é possível segue sendo possível, eterna...

Carta

Foi impossível chegar ao final sem querer voltar e reler um trecho qualquer que possa explicar por que as coisas são como são. E é por isso talvez que eu concorde com essa ideia de que toda literatura é de autoajuda de alguma maneira. Encontrar o tempo é uma felicidade. Estou tentando encontrar o meu. Mas a carta não tem nada a ver com isso. Com o meu tempo.  A carta é sobre música e amor. É também sobre essa coisa louca da paternidade. Então, se puderem, deem um jeito de ler. É uma carta bonita , eu garanto.  

Putas

"Em todos nós existe o mal, e um cineasta deve mostrá-lo, deve exprimir o mal. O que nos diverte mais? Passar a noite toda falando de uma puta ou de uma mulher tranquila que só se deita com seu marido? Da puta, é claro. Elas são mais interessantes. O que podemos dizer de uma mulher tranquila? É uma mulher tranquila, nada mais. Tenho o hábito de dizer o seguinte: existem apenas duas categorias de indivíduos, os que são maus e os que são muito maus. Mas nós chegamos a um acordo e chamamos os maus de bons e os muito maus de maus." Um dos verbetes de Fritz Lang publicados na FSP de hoje.  

Parágrafo único

Um último e dispensável parágrafo diz respeito a todos os parágrafos anteriores, ou seja, relaciona-se tanto à felicidade quanto ao modo como o tema aparece de forma esquiva logo abaixo, com indicações claras de que, ainda que estejamos falando há milênios sobre um mesmo assunto, o que fica evidente é o seguinte: o que está ao alcance de qualquer um é unicamente cavar e continuar cavando e no esforço de cavar danificar mãos e cegar as ferramentas e, a despeito disso, continuar, mesmo quando as escoras ameaçarem vergar sob o peso da areia que foi retirada do buraco e depositada um pouco acima das nossas cabeças, forçando o teto e estreitando corredores. Mesmo nessas horas, abrir buracos na terra e esperar que de lá saltem coelhos ou elefantes ou finalmente aquela criatura mágica que estamos procurando faz tempo e que certamente nos fará felizes é tudo que de fato interessa.  

"Quem vive sem utopias vive um pouco sem razão"

O POVO – A Revolução dos Cravos, comemorada recentemente, melhora a disposição dos portugueses para encarar o cenário de crise no país e na Europa? Valter Hugo Mãe – A Revolução dos Cravos é uma das datas mais dignas da nossa história. Acabar com uma ditadura é basilar em todos os lugares do mundo. E foi isso que aconteceu há 40 anos. O meu respeito pelo 25 de Abril (de 1974) é absoluto. A crise é ótima para todos os totalitarismos, todos os cretinismos, todos os despotismos e, se quiser até uma palavra que acho que nunca disse publicamente, para todos os “filhadaputismos”. Os 40 anos são efetivamente uma ajuda para que as pessoas percebam que há uma construção, que é a democracia, que recuou muito nos dois últimos governos, sobretudo neste governo que agora está no poder e que é um grandessíssimo monte de “merda”.    OP - Como você vê a construção de uma nova hegemonia alemã no continente? VHM - É assustador. É muito claro que a Europa neste momento está sendo ...