Um último e dispensável parágrafo diz respeito a todos
os parágrafos anteriores, ou seja, relaciona-se tanto à felicidade quanto ao modo
como o tema aparece de forma esquiva logo abaixo, com indicações claras de que,
ainda que estejamos falando há milênios sobre um mesmo assunto, o que fica
evidente é o seguinte: o que está ao alcance de qualquer um é unicamente cavar e
continuar cavando e no esforço de cavar danificar mãos e cegar as ferramentas
e, a despeito disso, continuar, mesmo quando as escoras ameaçarem vergar sob o
peso da areia que foi retirada do buraco e depositada um pouco acima das nossas
cabeças, forçando o teto e estreitando corredores. Mesmo nessas horas, abrir
buracos na terra e esperar que de lá saltem coelhos ou elefantes ou finalmente aquela criatura mágica que estamos procurando faz tempo e que certamente nos fará felizes é tudo que de fato interessa.
Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...