Pular para o conteúdo principal

Postagens

O lugar da barriga no mundo

A barriga é o verdadeiro espelho da alma. E se ninguém havia dito isso antes, trata-se de perdoável lacuna no desenvolvimento da ciência axiomática. Afinal, nem todo mundo atribui à região um protagonismo além do que desempenha no processo digestivo, o que é um grave erro. Mais que uma máquina de processar os alimentos, a barriga é uma usina de emoções. Do medo à paixão, a barriga capta, como nenhuma outra parte do corpo, o porvir, antecipando-o e traduzindo-o por meio de contínuas pulsações a que normalmente damos o nome de “friozinho”. Da ínfima perturbação no humor – próprio e alheio - aos eventos que promovem drástica alteração no eixo de nossas vidas, pondo em desalinho a execução das atividades rotineiras: tudo passa, antes, pela barriga, que, além de espelho d’alma, acaba funcionando também como filtro. Genuína estação de tratamento, beneficia-se da geometria do corpo, fixando-se a uma distância segura do peito e do ventre. Menos erógena que as tradicionais porções implicad...

Hipótese de Einstein

Tinha esse problema que não sabia qual era, nem se podia chamá-lo realmente problema, tampouco solução. Afinal, era possível que não passasse de algo orbitando um planeta que apenas muitas centenas de anos depois um grupo de cientistas reunidos em torno de uma ampla mesa branca decidiria rebaixar. Denominou-o simplesmente “dado”, uma maneira educada e algo limpa de abordar o “estado geral das coisas”, outra expressão a que recorria sempre que não se via suficientemente livre para conferir à realidade a nomenclatura adequada, o que acontecia com uma frequência acima do normal. Um tipo de máquina de Goldberg elevado à enésima potência: eis a situação. Um dado, portanto. Material ou imaterial, concreto ou abstrato – grosso modo, eram perguntas às quais não encontrava solução imediata, de modo que, assumindo tratar-se de um caso aparentemente típico de “ação fantasmagórica à distância”, conceito que vinha de empréstimo da teoria da relatividade geral de Einstein, optou por...

Março, quase abril

Amigos discutem na rua vazia. Falam sobre a possibilidade de um dia constituírem família, como seria a vida de cada um, a quem sairiam os filhos, mais ao pai ou à mãe, que tipo de educação teriam, e logo fica claro que a série de perguntas passando em rodízio como bolinhas de peixe servem ao propósito explícito de animar uma conversa de bar. Na prática, porém, resultam desimportantes. Ou eu as julguei desimportantes, dá no mesmo. Estava longe o tempo inteiro, dormindo em algum ponto entre a cama e o corredor, andando de lá pra cá, batucando os nós dos dedos no ferrolho da porta, checando a que intervalos os televisores ligados nos apartamentos vizinhos emitiam rajadas de luz, acendendo cigarros, investigando cada centímetro quadrado do rosto que surge quando de repente a tela do computador nos devolve uma superfície escura. E o que vemos quando a tela escurece? É um rosto alegre ou triste, cansado ou enérgico, atento ou satisfeito? Na rua vazia uma árvore ainda guarda ...

Pessoinha

Há metafísica bastante em não pensar em nada  O que penso eu do mundo?  Sei lá o que penso do mundo!  Se eu adoecesse pensaria nisso.  Que ideia tenho eu das cousas?  Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?  Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma  E sobre a criação do Mundo?  Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos  E não pensar. É correr as cortinas  Da minha janela (mas ela não tem cortinas).  O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!  O único mistério é haver quem pense no mistério.  Quem está ao sol e fecha os olhos,  Começa a não saber o que é o sol  E a pensar muitas cousas cheias de calor.  Mas abre os olhos e vê o sol,  E já não pode pensar em nada,  Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos  De todos os filósofos e de todos os poetas.  A luz do sol não sabe o que faz  E por isso não erra e é comum e boa.  Meta...