Pular para o conteúdo principal

Postagens

A santa marcha

O que nos leva a pensar no heroísmo, em Seya, Daniel, o vingador do futuro, o truculento He-man, Bob, o solitário Logan, uma infinidade de personagens cuja marcha até a superação dos pequenos fracassos é marcada por muito sofrimento, quase abandono do ringue, revisão de princípios, apelo aos amigos, à família, cara no chão, dor, lágrima, o sentimento total e irreversível de que o mundo não foi feito pra gente. Até a chegada do herói sem nome, sereno, violento. Uma jornada e tanto: como Daniel, vindo de outra cidade, igualmente desconhecida, à procura de uma vida tranquila, o que fica pra trás é apenas uma intuição, corolário de violências anteriores. O herói sem nome agride com martelo, faca, o salto da bota de caubói, suja-se inteiramente com o sangue do oponente de rosto difuso, caminha lento, abre a porta do carro, engata a marcha de força e vai embora. Herói sem território, sem família, vítima da frouxidão dos vínculos. Mais um coração atordoado no mundo, barqu...

A nostalgia não é aceita neste DOJO

Daniel-san, o LaRusso, o pupilo maltratado do senhor Miyagi, em três tempos: primeiro, nos anos 1980, quando Daniel era um garoto que dançava dentro das calças e camisas largas vindo de outra cidade. Daniel apanhando dos valentões: na praia, na rua, no estacionamento, uma constante. Depois, já depois de 1990, mas antes dos 2000, Daniel, coração apaixonado por uma loira de sorriso alarmante, toda desejo de aninhar nos braços e peito aquela ave mirrada. Salto: segunda década do novo milênio, 2012, quase 2013, Daniel, ainda magro, ainda apaixonado e meio tonto, é um menino perseverante, corajoso, insubmisso, que luta para não deixar a cidade natal, cede aos apelos da mãe e se muda, um garoto sensível que se interessa por bonsai, apanha e não tem medo de andar nas ruas. Apenas na madrugada de ontem, depois de ver o filme pela sétima ou 34ª vez em minha vida, as três peles de Daniel-san viraram uma só. Me vejo em parte delas: criado em ambiente doméstico, penei basta...

Vestido

O vestido é uma peça vulnerável, disse uma amiga, melhor colocar um short, uma calça, hoje quero beber, quero encontrá-lo no fim da linha, da noite, naquela mesa marcada e pedir uma cerveja, melhor duas, depois uma caipirinha, antes uns pastéis, que não bebo de barriga vazia. O vestido, de fato, pensando bem, considerados os prós e também os contras, subtraídos os riscos, levando-se em conta as possibilidades, medidas as circunstâncias, tendo em vista o propósito, conforme a designação espiritual de cada um, sob pena de parecer ridiculamente insistente, o vestido, reparem, é uma peça essencialmente vulnerável, o vento, a mão, a farpa solta na cadeira, o homem tarado, a criança, a amiga. É bem possível que uma infinidade muito grande – redundante - de pessoas conseguisse erguê-lo facilmente, mas nem todos dançariam ao arrepio.
a mulher é uma construção  com buracos demais  vaza Angélica Freitas  

Passinho

Todos os assuntos, mensalão, Júpiter, a amante de Lula – sim, Rosemary é amante de Lula -, tenho absoluto domínio do fato, as revistas, as edições, Curiosity, a escolha do técnico, a demissão do assessor, a formação da mesa diretora da AL, a ficha limpa, a suja, há uma infinidade de temas em torno dos quais manter uma conversa torna-se atividade fácil, simples, basta começar, basta querer, então, mas não querendo não há assunto que possa render, nada. Digo tudo isso pra disfarçar o real assunto, o real interesse, fiz que driblava pra esquerda, fui pra direita, mas ninguém se mexeu, driblei sozinho, nas cadeiras do auditório a plateia acompanhava desinteressadamente o lance ridículo, direita, esquerda, finalmente direita, performance previsível, lenta, patética, então todo mundo ri, o que logo se converte em gargalhada e depois em choro convulso. Caia, tropece, troque as palavras, enrosque-se na própria sombra – é garantia de riso, diversão, gozo alheio para a eternidade. En...

Os meses mais quentes

O jeito é assim, deixa contar, fazer cada coisa devagar, lentamente, quase parando, uma velocidade de lesma vencendo ladeiras de Olinda, nunca vi ladeiras tão íngremes quanto as de Olinda, nunca vi Olinda, é verdade, vamos ao ritmo, também cadenciado, como se diz no futebol, um time que joga de maneira cadenciada tem mais posse de bola, trabalha com i nteligência, o que não significa que ganhe sempre, pelo contrário, a inteligência normalmente é sinal de desprestígio, em excesso, então, é sinal de ruína. Ruína, bancarrota, não entendo nada. Enquanto todo mundo na cidade fala do calor, os que não estão falando sobre calor cogitam a possibilidade de, em algum instante vindouro, abordar o tema, frontal ou lateralmente, não interessa, enquanto o mundo inteiro que conheço é monotemático e não dá sinais de que a situação possa melhorar nos próximos meses, que são também os meses mais quentes do ano, o que faço? Comento displicentemente, puxa, senhor porteiro, o maçarico liga...