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Space dog não sabe trabalhar

Space dog encara o firmamento e crê que, esteja onde estiver, há chances iguais de que a atmosfera seja ao menos semelhante à da Terra, de modo a proporcionar sobrevida. O que procura é dar o passo seguinte, também chamado passo adiante, o movimento que se segue a outro, conforme ensinam os manuais de física. O passo adiante requer menos porção extra de energia. O passo adiante requer mais destemor. Da necessidade entende-se o seguinte: desconfortável, precisa, voluntária. O passo de través, torto. Mecanismos exóticos, enérgicos, soltos, livres, aquecidos mediante confinamento em espaço diminuto. Mecanismos produzem quase sempre temeridades. É autoexplicativo: temeridades são o que são. Se calharem agradar, perdem o sentido. De acordo com renomado pesquisador das mídias, nada é escolha. Tudo é conformidade, adequação, jogo de peças de encaixe. Enterrava fundo a consciência modular, montável, de modo que, no dia depois do dia, quando acordasse novamente refém da organiza...

Viabilidade

Cada tempo encerra uma gramática, uma língua, uma multidão. À medida que se aproximava, encarava a impossibilidade com algum enfado. Amanhã estarei na livraria, pedirei café, a atendente sorrirá etc. Era passado, o tempo demovido. Passado é época de certezas. Nada se recupera. E todo retorno é inviável.

Falo à parede

Falava com as paredes havia meia hora. Falar com paredes não representa problema. Desde que não haja expectativa de resposta. Não era o caso. Por natureza, sempre aguarda resposta. Uma equação logarítmica, por exemplo. Admitir o que não deve ser admitido – sequer às paredes - era uma modalidade de escrita recente, arriscada, imodesta. Trata-se disto e não daquilo. Quantas pessoas terão a capacidade de simplesmente dizer? Dar as costas. Comunga a abertura clássica: peão adiante, seguido de cavalo e bispos. Fragmentos de areia, cimento, água, brita, tinta e poeira intergaláctica, paredes não têm o hábito de revidar – tampouco acusam golpe algum. A força consiste em preservar-se do risco. Enigmáticas, armam-se de silêncio – percorrê-las é o desafio. Entendia a falta como forma soberana de diplomacia. E, claro, fina expressão amorosa. Por definição, nenhum amor começa ou termina com histeria. Histeria e amor anulam-se. Amar inscreve-se no reino do entreme...

Vocação: extremos

I. Sob qualquer ponto de vista, um jovem deficitário, adivinhou o médico. Como lhe restasse tempo de consulta, fez ainda a seguinte ressalva: “Detém-se excessivamente no vulgo, a vista dirigida às pequenezas, uma volúpia mal disfarçada para detalhes, que jamais passam despercebidos, mas, pelo contrário, potencializam-se indefinidamente, inflacionados por vontade autoalimentada”. Detalhes de que tipo?, quis logo saber, ambicioso de “exoexplicações”. Cores, cheiros – sobretudo cheiros, resumiu o especialista, cada cheiro e cada textura recebem, em casos assim, uma codificação específica cujo propósito é facilitar a busca futura. A exagerada importância dispensada às dobras do corpo, cicatrizes diminutas, demarcações ínfimas de pele, defeitos miúdos, oleosidade, suores etc. Um verdadeiro catálogo da carne. Deve existir alguma vantagem evolucionária nisso tudo, provocava, entre contrito e distraído. II. Como em qualquer situação, o lado ruim tinha contornos mais bem definidos. ...

A natureza-demônio

A mulher repetia: “É bom que haja demônios”. “De modo que possamos espantá-los”, continuava, a voz acusando profecia. “Mandá-los para bem longe ou, gesto mais amoroso que ousado, trazê-los para bem perto.” Disseram que a mãe herdou da vovó esse jeito enigmático, vezo sempre presente na hora do almoço, quando deitava falação. Vovó foi embora há dois anos. Morte arrastada, sofrida, contagiosa. Já perto do fim, assistida por uma enfermeira gorda cujo único divertimento era rever as temporadas de Friends , passou a anunciar descobertas científicas a cada rodada medicamentosa. Nos delírios de velha moribunda, garantia que os maias estavam redondamente enganados, que a luz tinha tripla manifestação física e que, ao invés de se expandir, o universo se contraía. “O mundo está encolhendo, meu filho.” Jamais duvidei. Uma das histórias que contou à mãe foi que demônios não são essas entidades esquivas, malignas, habitantes de uma faixa orbital evanescente, oposta a uma mais concreta, real. Criatu...

Anos de chumbo

Slayer sorri: talvez o maior pichador do NORTE/NORDESTE, morava na Serrinha. Faleceu em 2009 ou 2010. Único a estar presente em todas as Regionais de Fortaleza. Em 1992, embora não houvesse tantas razões para que alguém colecionasse canetas Pilot, eu colecionava. Quer dizer, havia um motivo, mas de natureza inconfessável. Por natureza inconfessável entendam o seguinte: sob hipótese nenhuma a mãe poderia ficar sabendo. Do contrário, surra. De maneira que, naquele tempo, acumular canetas não era uma atividade reconhecidamente banal entre garotos da minha idade. Garotos da minha idade preferiam bilas, piões, cartuchos de videogame e cartas de baralho pornô. As cartas podiam ser divertidas, admito, e de fato passávamos algumas tardes no quintal entretidos com elas. Soterradas por pilhas de álbuns de figurinha na última gaveta do guarda-roupa, minhas canetas vermelhas e azuis tinham certo magnetismo. Além do vermelho e do azul, havia outras duas cores de Pilot. Desgostava da v...

Peixe pequeno

P ermissão para tergiversar.  Permissão concedida. A ocasião convida à reflexão demorada. Efeméride tardia marca sete anos do blog.  Era julho de 2005 quando resolvi que seria saudável administrar um espaço privado na internet. Um cantinho onde me sentisse à vontade para flanar de cueca e sapatear na própria lama das ideias miraculosas. Tinha 24 anos. Assim nasceu o auspicioso “P&D”, blog de pouca chacota e muita lamúria. Influência direta da leitura d’O blog de Bagdá. Foi no P&D que dei início ao meu projeto Sanear II. Lá enterrei as primeiras fornadas de resíduos sólidos produzidas em escala industrial. Aqui estamos, sete anos depois. A expressão – P&D – foi cuidadosamente pinçada de um romance do Marcelo Mirisola. Para quem não lembra, o Mirisola era o escritor mais “polêmico” da época, título a que se juntava o de mais chato. Atualizava o blog clandestinamente, no trabalho, e algumas vezes em casa, nas horas de folga, e tanto num ca...