
Em 1992, embora não houvesse tantas razões para que alguém colecionasse canetas Pilot, eu colecionava.
Quer dizer, havia um motivo, mas de natureza inconfessável.
Por natureza inconfessável entendam o seguinte: sob hipótese nenhuma a mãe poderia ficar sabendo.
Do contrário, surra.
De maneira que, naquele tempo, acumular canetas não era uma atividade reconhecidamente banal entre garotos da minha idade.
Garotos da minha idade preferiam bilas, piões, cartuchos de videogame e cartas de baralho pornô.
As cartas podiam ser divertidas, admito, e de fato passávamos algumas tardes no quintal entretidos com elas.
Soterradas por pilhas de álbuns de figurinha na última gaveta do guarda-roupa, minhas canetas vermelhas e azuis tinham certo magnetismo.
Além do vermelho e do azul, havia outras duas cores de Pilot. Desgostava da verde e tolerava a preta, que usava para rabiscar superfícies mais claras, ocasião em que me sentia particularmente perverso.
A verdade é que jamais imaginei que seria um grande colecionador, fosse de canetas ou de cartas de baralho.
Uma coisa que gostava de fazer era escrever cartas de amor, que não enviava a ninguém.
Como me recusasse ir adiante na coleção de times de botão, e na de pitos de bicicleta tivesse quebrado a cara ao perder tudo numa briga de peixes, não cheguei a ultrapassar a marca ridícula de vinte Pilot.
Tinha 11 anos e 20 Pilot.
Morava num bairro de garçons, taxistas, carteiros e caminhoneiros.
Os pontos cardeais da minha rua eram: o armarinho, a oficina mecânica, a casa de umbanda, a escolinha, a casa da Marcela e a bodega.
Giz de cera, carvão, lascas de tijolo, castanhola verde – tudo isso tinha serventia, mas nada se comparava à eficácia das Pilot quando saíamos para riscar portões de ferro, postes, janelas e orelhões.
Escrita macia, design bonito, cheiro forte da tinta. As canetas Pilot eram uma unanimidade entre pichadores iniciantes.
Fui pichador durante curto período da vida.
Assinava JOCÃO.
Levava horas treinando no caderno da escola: um jota alongado, que se emendava às demais letras, sem interromper o traço, arrematando tudo com um til ondulado.
“JOCÃO.”
Nunca achei que tivesse cara de JOCÃO. Eu não tinha cara de nada.
Percorríamos ruas e avenidas de madrugadinha ou cedo da noite. Olhar atento a muros e marquises, respiração ofegante, turbilhão de emoções, carreira engatilhada.
Os vigias não se preocupavam com a gente, mas com os casais de namorados, o verdadeiro perigo à sociedade.
Despudorados, os casais de hoje ficam bastante à vontade de pernas encangadas - posição que, dado o nível de entrelaçamento dos membros inferiores, costumo chamar de “caranguejada”.
As preliminares têm início ainda na praça, sob a vista de vendedoras de acarajé e de crianças montadas em triciclos.
É tudo natural.
Ainda que não regulamentado, o trabalho do pichador pressupunha algumas regras básicas.
Por exemplo, jamais encobrir a “sharpi” de outro cara, salvo quando desejasse desafiá-lo para uma disputa.
Por disputa entendam “sair no tapa”.
Participei das seguintes galeras: DM (Demônios da Madrugada) e GG (Garotos Grafiteiros). A pretensão foi nossa ruína.
Todos os integrantes da DM viviam na mesma rua. Era uma gangue doméstica, por assim dizer.
Mais que receber de presente um Mega Drive, entrar na GTM (Grafiteiros do Terceiro Mundo), a galera mais considerada da área, constituía o sonho de qualquer moleque.
Trinta e poucos anos, calvo, meio zen, usava cordão cujo pingente era um símbolo da paz feito de chumbo, tatuagem no ombro, mau jogador – esse era perfil do líder da GTM.
Uma noite, depois de me ver bater num menino, ele me disse que, se continuasse indo bem daquele jeito, se me mantivesse no topo da cadeia alimentar, talvez pudesse entrar no grupo.
Não haveria tempo. Mudamos de bairro semanas depois.
Após duas décadas, onde estará o líder da GTM?
Foi pensando nele, e não nas canetas Pilot, que comecei a escrever.
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