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Dúvida

Ainda serei livre o suficiente para dar o nome de Superávit Primário a um filho ou a um animalzinho de estimação, desses que povoam apartamentos e janelas de carros, um cachorro, um labrador, quer nome melhor nos dias atuais que Superávit Primário? Dólar em queda? Talvez.

Ondas de calor

O calor imenso que se choca contra o muro e volta, deixando para trás quem sabe menos de 30% de sua fúria ao fim dessa operação refratária, o calor, considerem isso enquanto caminham distraidamente, o calor reflete-se no chão e retorna como vendeta, um bafejar demoníaco que atinge o loteamento de pele mais precioso de qualquer ser humano, o rosto, cauterizando todos os milímetros quadrados da sua cara e fazendo seus olhos arderem como se um bêbado houvesse despejado a urina acumulada de cinco horas bem dentro deles, o calor que faz suar, o calor que faz murchar a folhinha verde da planta no jarro, antes tão esticadinha, o incrível e desordeiro calor das treze horas, o mesmo que nos obriga a adiar qualquer saída no intervalo que vai das 11h30 às 16, o mesmo responsável por hordas de pensamentos moral e eticamente inapropriados quando, num ônibus cheio, a caminho da escola / faculdade / trabalho ou de que porra de lugar se esteja indo, junta-se a 1. uma música indefensavelmente alta e 2....

Trecho

Sim, de algum modo, é possível imaginar que haja uma segunda voz para cada coisa dita, e uma terceira para cada coisa apenas esboçada, mas não dita, o tipo da coisa que fica presa por anos e anos, à espera não que seja finalmente verbalizada, posta goela e língua e dentes afora, mas que os dias e depois os anos e por obra do tempo arredio as décadas enterrem-na bem fundo, essa coisa de que não gostaríamos de abrir mão, reconheçamo-lo, todavia, seja porque há todo um clichê de frases cuja validade é unicamente enfatizar a grandeza das perdas, seja porque, de uma maneira ou de outra, elas nos sobrevêm, não custa nada entender que nem tudo é feito para virar palavra. Dito isso, é possível, sim.

Lima, lume, Lo, La, Lo-li-ta

Mais uma poesia. Há tantos poetas nas redes sociais. A semana passa tão rapidamente, e nesse torvelinho temporal – baita expressão capinada ao acaso de duas xícaras de café e três cigarros tragados em sequência - sequer conseguimos recordar o que foi notícia na aurora dos dias, ou seja, a segunda ou a terça e, no limiar, a quarta. Sequer conseguimos recordar o que foi notícia há duas horas, quando, menos por interesse que por síndrome de ALT+TAB, essa doença que aos poucos vai suplantando a meningite e o amplo espectro das DSTs, recorremos à aba do portal noticioso. Apenas para entendermos pela 89ª vez que a manchete estampada ali é a mesma de há 1h28min36s. A "reportagem" - denominemo-la assim - mais longeva, sem dúvida, é a que trata da nudez midiática da atriz loura e peituda que se fotografou no quarto de algum hotel e, após considerar sua vida em perspectiva, descobriu-se fragilmente mortal, com o perdão da redundância. Voltando ao leitmotiv . Se duvidam, experimen...

Mensagem para você

Houve um debate bastante acalorado ao qual adoraria ter comparecido. Nesse debate, discutiram-se algumas possibilidades, como apostar na linguagem, na forma, aliada, obviamente, ao conteúdo, portanto temos aqui a proposição inicial: forma + conteúdo conjugados, uma saída relativamente tradicional, afinal de contas um sem número de escritores / narradores investiu maciçamente nessa composição, cujo mérito é nem abrir mão das inventividades técnicas, nem das conteudísticas. Isso parece sensato. Embora realmente não interesse. O que interessa está para ser dito. E isso não é axiomático. *** Hoje só vou falar como ser humano, como um entre os sete bilhões de pessoas do mundo . Não sei exatamente o que o Dalai Lama (Oceano de Sabedoria ou Saber, tanto faz) quis dizer com isso, mas posso supor que tenha tentado nos fazer entender – ao público da palestra de ontem, principalmente – que estaria ali, à frente do microfone, encarando uma plateia heterogênea, não como líder espiritual. O ...