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O PARQUE DE DIVERSÕES

A cena do parque. Homem branco se aproxima de catador de latinhas. Catador lhe pede dinheiro. Possivelmente para comer. Homem branco, calvo, camisa de botão e calça jeans, fica ainda mais próximo. A poucos metros dali, casal assiste tudo. Parece desconfiado. Homem branco e catador cochicham. Homem explica algum procedimento. Orienta, sugere etapas para o cumprimento rigoroso de alguma tarefa. Catador está confuso. Quer as moedas, mas não sabe se está realmente entendendo o que Homem branco pretende com tudo aquilo. E essa voz? Por que tanto rigor, tanto método comprimidos numa voz rala, insidiosa? Ele não entende. Quer atacar as moedas e se danar dali. Homem branco nota chegada do casal, desconcerta-se, finge interesse na rotina nutricional do catador. Tem movimentos amolecidos. Ele logo pergunta: dá para você lanchar? O catador olha as três ou quatro moedas que passaram a suas mãos. Acha que não vai dar. Atento, o casal cruza olhares com Homem branco. Em seguida, vai embora. O Homem c...

Vem das sereias

Encaro Maria Bethânia. Ela não quer dizer nada. Tem qualquer coisa parecida com um xale envolvendo o seu pescoço. Usa batom vermelho nos lábios levemente rachados e sombra nos olhos ligeiramente fechados. Mesmo feia, tem uma boca absolutamente bonita. Mas isso de modo algum a salva da desbeleza. Maria Bethânia é sobretudo feia. Tem ares de bruxa, cabelos grisalhos espalhando-se na capa da revista. Parece um velho dinossauro. Uma deusa resgatada de alguma pirâmide. Dentro da publicação, ela posa para fotos. Usa roupas folgadas: uma calça azul marinho e um camisão branco, cujas mangas vão até os pulsos magros da cantora. Porque desposou o candomblé, ela não usa preto. Descrevo o rosto: olhos profundamente pretos – desta vez, pretos mesmo. Cabelos ondulados, pele sulcada por incontáveis linhas que, vistas de bem perto, lembra as lavouras de feijão e milho. Para a idade que tem, há poucas rugas. É comedida nos adornos: um relógio e um cordão que lhe escorre até a cintura. Enquanto penso em...

Canta, Benito, canta

Ora, ora, se não é a Krise que bate à porta e pede entrada. Eu digo entre, sim, e trate logo de se abancar, que nossa conversa consumirá ao menos dois terços de minha vida. Mas ela tem pressa, diz que veio assustar mas já tem agendada outras querelas. Eu digo não seja por isso, e me ofereço de bom grado como ajudante ou o que quer que seja. Ela se sente lisonjeada, pede tempo para medir corretamente as implicações daquela decisão, eu digo prontamente não há nada que ser decidido, aqui estamos, aqui permaneceremos. Já na esquina, ela acena. Promete deliberar e concluir tudo dali a dois dias. Aguardo. No rádio, toca Benito de Paula.

Cosendo costuras íntimas

Não sei, não sei, mas acho que fico por aqui desse jeito pensando no que não pode ser mas deveria. Ressalvo porém que os verbos quando terminados em “ia” me assustam profundamente, me convertem em espera e a espera em ansiedade e a ansiedade em cigarros. Não sei se disse por aqui mas detesto usar e esta, e este, e essa, esse, como em “Este foi por sua vez” ou em qualquer outra situação cuja estrutura compreenda uma formação semelhante. Sempre detesto. De modo que os verbos quando encerrados nostalgicamente por “ia” atormentam, mas temos ou não temos de aprender a lidar com a tormenta? Claro que temos, certo que temos, corretamente. Mas não sabemos. E aqui entram os cigarros, que não nos ajudam positivamente mas nos ajudam negativamente, e nos casos em que a ajuda não vem, qualquer tipo de auxílio é definitivamente bem-vindo, mesmo aqueles que nos prejudicam. Disse tudo que tinha pra dizer nesse sábado medonho de feriado. O clima está péssimo. Acho que estou viciado em conjunções advers...

So so so boring

Aqui , coisas utilíssimas. Como: “Noventa por cento dos e-mails enviados diariamente é spam.” “Gatos dormem 70% de suas vidas.” “Elefantes não podem saltar e peixinhos dourados não podem piscar.” Aproveitem. É liquidação. Mentira. Não aproveitem nada.

Onde os fracos não têm vez

Adrien Brody ( O pianista ) fará o novo Predador . Sim, ele mesmo. Ao lado de Alice Braga, estrelará um filme que, para mim, é cult. Sempre que passa, vejo. Não tenho o disco em casa. Nem gravado. Nem copiado de arquivo ilegal. Nem em VHS. Mas sempre que passa, vejo. À noite, nas madrugadas. Sou fã incondicional daquele monstro. Quer dizer, do alienígena. O melhor. Melhor que aliens, vampiros, lobisomens. Não há qualquer criatura que possa superar a maestria criminosa do Predador. Ele é insuperável. Tem estilo, amedronta, aterroriza. Que dizer da mira que sai do ombro? E da camuflagem, que se confunde sempre com o ambiente, permitindo que ele quebre espinhas de humanos quando lhe dá na telha? E da visão em camadas? E dos cabelos? Predador é o máximo. E vai ganhar nova versão. Nela, Brody será um mercenário que caça os caçadores de humanos. Maravilha. Esperemos.