Pular para o conteúdo principal

Cosendo costuras íntimas

Não sei, não sei, mas acho que fico por aqui desse jeito pensando no que não pode ser mas deveria. Ressalvo porém que os verbos quando terminados em “ia” me assustam profundamente, me convertem em espera e a espera em ansiedade e a ansiedade em cigarros.

Não sei se disse por aqui mas detesto usar e esta, e este, e essa, esse, como em “Este foi por sua vez” ou em qualquer outra situação cuja estrutura compreenda uma formação semelhante. Sempre detesto.

De modo que os verbos quando encerrados nostalgicamente por “ia” atormentam, mas temos ou não temos de aprender a lidar com a tormenta? Claro que temos, certo que temos, corretamente.

Mas não sabemos. E aqui entram os cigarros, que não nos ajudam positivamente mas nos ajudam negativamente, e nos casos em que a ajuda não vem, qualquer tipo de auxílio é definitivamente bem-vindo, mesmo aqueles que nos prejudicam.

Disse tudo que tinha pra dizer nesse sábado medonho de feriado. O clima está péssimo.

Acho que estou viciado em conjunções adversativas, não sei bem a origem desse vício, se ocorre sempre que tento construir alguma afirmação ou se é resultante da natureza adversa que me acompanha nesse tempo.

De qualquer maneira, Oskar, não permita que as coisas melhorem, por favor. Observação: só agora vejo, há uma barata alojada debaixo da tecla CTRL do meu teclado. Está aqui há pelo menos trinta anos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...