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A madrugada é dos crentes

Tem dias que a gente acorda no meio da noite sem motivo, sem desculpa vai e levanta, vai e desperta, vai e não quer apenas aliviar alguma dor, mas encará-la duramente porque na madrugada não há esconderijos, tudo se mostra, tudo é gravidade, e se no corredor ouvem-se passos e se no telhado ouvem-se gritos e na janela entrevêem-se vultos, há que os ouvir, tatear, mesmo sufocando calores da noite, mesmo desejando fortemente que as duas horas que ainda restam sumam feito pó soprado por ventania, porque, se a madrugada tem modos diversos de operar, se ela atravessa medos e agonias é minimamente razoável aceitar tudo que sobrevier. E enxergar o que está adiante, que é existir.

Microcertezas geradas a partir da sondagem fonética

É ela. Sei que é. Tem certeza disso? Absolutamente. Sendo assim, podemos seguir com as perguntas. A que horas tudo aconteceu? Umas sete, sete e meia. Entre sete e meia e oito, se me lembro bem. Posso anotar? Evidentemente. Como ela lhe pareceu? Bonita. Mas não só isso: era especialmente bonita. Continue. Cabelos presos, sorriso largo. Acho que tinha as mãos na cintura. Conversava com outra mulher. Era radiante. A outra mulher? Não, a cena. Ela, o sorriso, os cabelos presos. E você, como se apresentava? Como todos os dias. Vestido normalmente. Nada muito extraordinário. E o que sentiu? Um golpe forte no peito. Já havia sentido isso antes? Sim, mas não com aquela intensidade, que só aumentou quando ela sorriu. Vi que tinha percebido tudo. Tudo? Tudo. O flerte. Imagino. “Tudo” durou uns vinte e cinco segundos. Fiquei parado. Era uma estátua. Depois nos vimos novamente. Quer dizer, eu a vi. Repetição? Não. Ela tropeçou num desnível do piso. Não me viu. Eu estava do outro lado da sala, esc...

Pedras nas mãos

O dia certo, o dia certo para errar e mesmo desejando fazer girar o trinco da porta do banheiro ou entrar por acaso no quarto e protegendo os olhos contra a luminosidade incandescente das horas enxutas desmanchar aquele bolo de roupas sujas e encontrar nele uma chave. A mesma chave que abre a porta secreta escondida atrás do guarda-roupa. É lá que costuma encerrar os arcanos domésticos, é para lá que se dirige sempre que algum disco-voador dispara raios. Feito pássaros de fogo, feito andorinhas nucleares, esses raios o perseguem dia e noite, noite e dia, e mesmo que haja levado a vida inteira ensaiando passos e discursos não há saída. Quase nunca há saída, conclui enquanto do outro lado da mesa ela mastiga uma folha de alface e sorri luzidia. Assim, resta a porta, que ele abre febrilmente. Deitada na cama ela finge dormir mas olha de longe, longe, longe, confundindo o personagem sorrateiro com o mesmo coelho branco que promove estripulias no reino encantado de Alice, mas ela sabe ainda...

"Não dispenso artista contemporânea"

Finalmente, a terceira entrevista da série. Até agora, dois canastrões e uma canastrona. Um espetacular e antológico volume de perguntas disparatadas respondidas seriamente por três personalidades anônimas da cultura cearense. Mesmo distante dos holofotes, eles mobilizam, agitam, pintam e bordam. Levam uma vida vertiginosamente vibrante? Nem tanto. Pedro Rocha, 23, é estudante. Formado em jornalismo, vasculha a obra de Mário de Andrade num curso de mestrado da Universidade Federal do Ceará. Além disso, o que faz por lá? Pouca gente sabe. Pode ser visto diariamente no conjunto seboso de bares que integram o boêmio Benfica. Rocha é crente. Já foi ateu, mas hoje tem os pensamentos mais puros voltados para qualquer coisa cuja força e humor acredita governar o destino de mais de seis bilhões de pessoas around the world . É torcedor do Ferroviário. No almoço, prefere cajuína a outros refrigerantes. Se bebe até de manhã, toma café no mercado São Sebastião. Joga videogame mais que qualquer um ...

Os elos geracionais

Uma hora qualquer a gente fecha os olhos e pede apenas um tempo, um prazo, um hiato entre as coisas de lá e as de cá, uma passagem branca que permita descanso, que gere a certeza de que do outro lado da ponte haverá apenas uma espreguiçadeira à espera, eternamente à espera. Mas não é isso que acontece, as coisas são mais complicadas, desdobram-se em mil outras e estas em tantas que uma hora, uma hora dessas ainda estamos presos e vencidos e soterrados por problemas que trazemos das gerações predecessoras. Então, a única saída é darmos um tiro pro alto e pedirmos por favor desçam todos do carro que o motorista quer paz, vai desligar o motor e dormir por três horas no acostamento.

Um mês para chamar de seu

Quando um mês começa com feriadão, quando um mês te saúda com saldo, quando um mês tem promessas e juras de amor elevadas à nona potência, quando um mês reserva cadinhos felizes – afinal daqui a pouco é Natal. Quando um mês consegue reunir tantas qualidades antes de completar quinze dias, é que talvez o pior ainda esteja por vir. Anotem isso. Não quero ser pessimista. Até porque talvez setembro seja apenas pra frente, de bem com a vida sempre.

Ima Oma Ama

De fato, de fato, examinando com atenção redobrada a escritura blogueira manipulada por Oskar, chega-se à mesma conclusão. Os textos apresentam quase sempre um mote, que pode ser inusitado, casual, relevante, oportuno, desvairado, non sense . A partir dele, constrói-se uma narrativa delirante, que nunca dura mais que dois parágrafos. Geralmente, interrompe-se na metade. Ali, uma ponta solta qualquer é puxada, e novos caminhos se desdobram à frente. Eles são explorados apenas superficialmente. Aliás, não há, supõe-se, qualquer intenção que nos faça crer que Oskar pretenda explorar minimamente o que quer que seja. É um surfista de águas rasas, um mergulhador de aquários, uma tartaruga marinha cujo maior temor é morrer afogada. Este é Oskar. Mas que dizer dos seus textos? Lembro agora das aulas de redação. Melhor, da estrutura simplificada sugerida por manuais devastadores. Anotavam introdução, desenvolvimento e conclusão. Tudo no mundo parece caminhar sobre esse tripé, parece existir sob...