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NOVA FOME

Sentia fome. Não sabia de onde vinha, por que sentia. Apenas tinha fome. Uma fome original. Comida. Nada a ver com a antropofagia, cultura subdesenvolvida. Era fome mesmo. Não podia escrever, não podia ler, não podia ouvir música. Não podia nada. Se lhe pedissem “Escreva um resumo da história romana” ou “Calcule a raiz quadrada de 64”, nada. Era fome. Uma coisa ancestral. Nada a ver com Glauber Rocha, Ferreira Gullar, Mário de Andrade, Caetano Veloso. Resistência, política, guerra fria, brigadas vermelhas, exércitos zapatistas, forças armadas, comando de caça ao que quer que fosse, revolta, motim. A única rebelião que conhecia era a que vinha do estômago. Apenas fome. Doendo na barriga. Das 14 às 17 horas, na hora da aula, não conseguia aprender nada. Das 17 às 20 horas, no cursinho de inglês, nada novamente. Das 20 às 22 horas, enquanto voltava pra casa, nada. Em casa, no quarto, na sala, absolutamente. De frente para a televisão. De frente para o PC. Nada. Nada até as 23 horas. Quand...

BREVE II

Hoje é 19 de março. E não choveu. Ao contrário: faz calor até agora. Um clima abafado sufoca todo mundo. O único refúgio é a calçada. Nas ruas, rodas se recuperam, o vento da noite enxuga o suor da cozinha. As mulheres respiram, as crianças correm. Os maridos fumam. Acabo de fumar. Um cigarro. Nada de maconha, nada de sálvia. Fumei cigarro industrial. Uma coisa legal. Vendida na esquina. Gera emprego. Décimo terceiro salário, peru de natal, ovos de páscoa. Férias. Algo definitivamente domesticado. O cigarro é um evento social. Um encontro. Fumando, você se sente melhor. O cigarro faz bem. O gosto ruim na boca depois é apenas detalhe. Um cigarro apenas. E o gosto. O sabor. A impressão: mastiguei um pedaço de carvão. Mordi o rabo do capeta. Beijei o demônio, que soprou seu hálito na minha boca depois de aspirar toda a minha humanidade. Tudo isso em apenas um cigarro. Tudo mesmo. Ocasionalmente, o cigarro mata. Aquelas pessoas atrás da embalagem que o digam. Infelizmente, elas ficam de co...

BREVES

Voltei. Não gosto do branco. É excessivo. É redundante. Diz tudo, não diz nada. Cega os leitores. Daí os sumiços? Talvez. Aqui me sinto em casa. Marrom. Gosto de marrom. Não sei como as palavras ficam, mas no meu monitor tudo é mais bonito. Tudo escuro. Melhor: meio tom. Nem claro, nem escuro. Falo depois. Estou ocupado com a pequena derrocada de sentimentos. Sou um homem aturdido. Sou um homem cansado. E tenho o dedo indicador direito em riste. Pra sempre. Apontando quem passa. Descubro espantado: a carne inflama. Sejam bem-vindos novamente.

Uma valsa na Esquina

Aqui , SOS Gramatical , publicado na revista piauí . Não me perguntem se estou contente. Claro que estou. Claro que bebi quando me responderam dizendo que o texto finalmente havia sido aprovado. Claro que exultei quando a equipe responsável pela edição da Esquina registrou em poucas palavras: “Fique à vontade pra enviar novas pautas”. Claro que fiquei animado com as 800 pratas que vou receber. Quando receber. Ontem assisti Valsa com Bashir . Resumo: vocês gostaram de Persépolis ? Valsa é melhor. Podem crer. Não exatamente melhor. Objetivamente, talvez não seja. Quer dizer, narrativamente... é mais atraente. Mas, se querem saber: o filme é realmente melhor. Você sente isso da mesma forma que sabe que está apaixonado por uma garota quando ela passa e simplesmente olha pra você e sorri. Apenas sorri. Você sabe no ato. Ela não faz outra coisa. Ela cruza olhar com olhar. E sorri. Pode ser apenas um riso despretensioso. Um riso de amigo. Mas você está ali, caído. E Valsa faz isso. No mais,...

Glauber Rocha

Sábado vadio. Dormi, dormi. No rastro do santo guerreiro AQUI , o caderno especial que escrevi. O tema é Glauber Rocha. Estou cheio de ideias na cabeça, mas sem câmera alguma nas mãos. Tenho coisa melhor: um teclado. Não teclado de seresteiro. Teclado de teclas em cujas faces há letras do alfabeto que, juntas, querem dizer alguma coisa mas nem sempre dizem. Sacam? Não que queira dizer alguma coisa. Bom, é isso mesmo. Nada vale a pena. A alma é pequena. Nós somos pequenos. Tudo é ordinário. Os maus vencem. Se algo pode dar errado, vai dar. Coisas assim que, postas a nu, a descoberto, defumam a existência. Quero defumar a minha vida. Mesmo. Por onde andam os amigos? Não sei. Dizer muito, dizer pouco. Não sei mesmo. Se me perguntam, digo vá à bíblia ou ao dicionário. Eu sou o cara mais estúpido que já pôs os pés sobre a face esburacada do planeta. Sequer produzo plásticos. Tenho tanto. Tanto mesmo. Tanto a fazer. Tanto a fazer que nem faço. Deixo tudo como está. Fazer enlouquece. Pensem c...