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O rosto como espelho

 

O que é um rosto hoje? Me pergunto se ainda reflete uma identidade, se comunica um conjunto de traços por meio dos quais situamos outra pessoa no tempo e no espaço.

Se é também informação importante ou se deixa de valer tanto assim, já que cada um passou a portar um rosto, a exibi-lo temporariamente, a se apresentar por ora.

Vini Jr., por exemplo. É um outro e não é, não o reconheço mesmo sendo o mesmo e dele ter apenas uma imagem retida das transmissões de futebol, das fotografias etc.

Se o procurasse, não saberia talvez de quem se tratasse agora que mudou de cara, e digo mudar porque creio que mudou de fato, como muitos outros, com resultados melhores e piores. Chegaria a alguém parecido, um rastro do que foi, um vestígio, uma pista, mas não ao jogador.

O rosto já não localiza, mas dispersa. Recombinado segundo gosto e poder, altera-se sutil ou radicalmente. Não há mais fidelidade, quem sabe nunca tenha havido. Não reflete, mas inflete, convidando a um novo hábito, esse de se acostumar com a mudança estampada na frente.

Não a plástica de uma mama reduzida ou aumentada, um nariz discretamente corrigido, uma calva recuperada, uma papada suprimida. Mas o desenho frontal de alguém para quem se olha.

Caso o encontremos muitas décadas depois, quem terá envelhecido? Saberemos dizer? E isso importa?

Trata-se de experiência curiosa a de flagrar no tempo coalhado o contorno do que era e não é mais. Nisso há uma familiaridade, uma certeza de que, embora décadas tenham se passado, existe ali uma constante.

É isso que se apaga, esse elemento que permanece a despeito de tudo, sobretudo porque o processo costumava se refletir na face.

Customizado, o rosto é agora acessório que se pode aprimorar, otimizar, melhorar. Não mais harmonizar, mas “naturalizar”, como se houvesse nele uma natureza que segue desnaturada enquanto o cirurgião não a retifica, uma alma escondida por trás da intenção da beleza que o profissional apenas faz emergir.

É parte da retórica médico-empresarial esse discurso de que não se está fazendo nada, somente aperfeiçoando o que já existe, explorando o potencial que o indivíduo – falo do atleta do Brasil, mas valeria para qualquer um – apresenta, seja um homem ou uma menina de 14 anos cujo corpo ainda vai se definir.

Em comum há essa disputa contra o tempo, a certeza de que envelhecer é não apenas um despropósito, mas antiquado. E logo surgem esses exércitos de pessoas cuja idade é indefinida, podendo variar entre 30 anos e 70, pintadas numa cor laranja artificiosa, como se clones de si mesmas.

Talvez sejam isso, simulações do humano habitando pernas e braços ainda orgânicos à espera de que a medicina se encarregue de prolongar a vida, nem quem seja por meio desses ardis que não enganam por toda a validade da carcaça física.

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