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O adeus a Cid Gomes

Texto publicado na coluna Guéri-Guéri, no jornal O POVO, em dezembro do ano passado.  "É com um banzo indisfarçável que o alencarino vê aproximar-se o fim da era Cid Gomes.  Nunca antes na história do Ceará um gestor concluiu oito anos de governança colecionando uma lista interminável de episódios cujo denominador comum é a fanfarronice e a absoluta falta de pudor. Em dois mandatos consecutivos, período no qual o cearense redefiniu os conceitos de estripulia, Cid flertou com o abismo ao dar uma tainha do capô de um jipe e deixou a vergonha de lado ao saltar de tirolesa no Cocó. Sucessor no trono estadual, Camilo Santana terá dificuldades para ombrear os trabalhos do tutor. Terá coragem? Sobrará desenvoltura?   Do incrível voo da sogra, cartão de visitas do governador, ao bufê com bombinhas de camarão no Palácio Iracema , passando por shows para inaugurar equipamentos públicos, a gestão do engenheiro civil prodigalizou o que há de anedótico na política. Midas...

Letra

E para minha grande surpresa, lá pelas tantas, o Zambra fala de um trecho da música. Melhor, não fala, cita. E a música diz assim: vou andando pelas ruas, misturando as verdades com mentiras. E continua. Algo do tipo. Ali, no meio da confusão sobre cigarros, parar de fumar, continuar fumando, o prazer da recaída para quem ficou uns bons meses sem tocar no cigarro mas um belo dia então resolve que já é hora e de fato é. Ali, no meio, bem no meio, o narrador, que suspeito ser o próprio Zambra, fala da música, uma música bonita, diz que se sente um pouco assim naquele momento. Então fuma. É uma recaída. Não será a última. Coincidentemente, a música fala de outra coisa, mas outra coisa é sempre uma coisa parecida com a anterior. A gente fala outra mais por fé do que por necessidade. Na prática, a outra é a mesma coisa. O Zambra fala do cigarro e das tentativas frustradas de parar de fumar e da beleza do reencontro com essa outra coisa. É um dos contos de ...

Receita perdida

  Escutem essa. Um rosto e depois outro. E entre os dois um pouco de tempo, que é como que para untar. Como se untam as formas na hora do bolo. E mesmo assim queima. A gente esquece mais tempo no forno do que o permitido e quando vai olhar se surpreende que tenha passado mais do que os 45 minutos prescritos no rótulo da receita. Mais tempo do que o que seria agradável esquecer. E aí então um rosto e depois o outro ficam grudados, tostados, um no outro fixados à força porque alguém resolveu jogar a receita fora e deixar os dois mais tempo do que o previsto flutuando nesse calor do forno baixo. Até lembrar que já era a hora, alguém resolve esquecer, mas aí já não era mais hora. É a regra de ouro na matemática do esquecimento. 

Esperar

E antes da sexta-feira propriamente dita, essa que começa em algum momento entre o fim do expediente e a nona cerveja, essa que vai passando devagarzinho enquanto a gente despeja água num copo de vidro antes de dormir e depois dorme, às vezes sonhando, às vezes não sonhando. Antes, um aviso. Mas um aviso tranquilão, desses que ninguém segue à risca, seja porque não ouviu direito, seja porque foi realmente dito bem baixinho de modo que ninguém a mais de um metro de distância tivesse condições mínimas de entender. Porque às vezes a gente não quer a compreensão de ninguém. Quer tudo, menos compreensão. Então estejam avisados, que é a melhor maneira de avisar tudo sem avisar nada. Estejam avisados. Não esperem nada. Exceto, é claro, tudo que já se sabia de antemão que uma hora ou outra iria acontecer. Toda sexta de noite tem chovido. Na praia de Iracema, enquanto a gente atravessa a avenida ou estaciona o carro e caminha depois uns bons três quarteirões até o bar mais...

Barbante

Tem ainda esse assunto das máscaras sociais, pesquei ali enquanto procurava assunto pra escrever antes de ir trabalhar. De fato foi assim, uma olhadela pro lado: máscaras. A frase do Catatau continua válida: toda máscara arrebenta no elástico. Sendo o elástico, por si mesmo, essa estrutura de durabilidade precária, hoje estica, amanhã não estica mais, hoje une, amanhã desata e por aí vai. Quem quer sustentar uma máscara por muito tempo não pode depender desse conjunto de fios que se juntam a propósito de qualquer coisa que se queira ver junta. O elástico, a máscara, a leitura clandestina de uma palavra solta ao lado e o tempo suficiente para fazer cada coisa que desejamos fazer. É difícil juntar tudo que nos interessa e começar então a falar e escrever. É mais ou menos como atar um pacote feito com várias caixas. Prendê-las umas às outras com o barbante – ou elástico? O que segurar por mais tempo. Embora, na prática, a força de oxidação seja mais presente ...