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Postagens

Felizes?

Impressiona não só a atuação de Paolla Oliveira, já fartamente explorada por jornais e portais, nem os meandros de Brasília, mas  a dificuldade - diria que quase uma incapacidade - que a maioria de nós tem de compreender: o nome da minissérie global é uma pergunta e não uma resposta ou mesmo uma afirmação reticente.  Eis, aí, o pulo do gato. À certeza, s egue-se um sinal gráfico que, associado à felicidade, tende a provocar calafrios e antecipar atividades sísmicas.

Retorno do real

Estive pensando sobre os rumores de que 2015 é talvez o novo 2010 ou o novo 2011 ou qualquer outro ano já perdido no tempo passado. Que este não é na verdade o ano que imaginávamos que fosse desde o início, ou seja, aquele que saudamos no final de 2014, à beira mar ou em casa, no parapeito da janela, esperançosos de que as novidades surjam no horizonte de expectativas e os dias se sucedam uns aos outros num rolar inabalável.  Estive pensando que o tempo é circular, é falsa qualquer ideia de progressão, portanto não avançamos nem recuamos.  Que  estranha essa temporalidade que vai e vem, indistinta, causando a sensação eterna de que os fatos se replicam continuamente. 

Je suis qualquer um

Não sei quem je suis, se o Charlie ou o Ahmed ou se o cara que se escondeu no freezer do supermercado quando a coisa ficou feia lá fora. Talvez preferisse je suis a menina cuja foto acabo de ver no Facebook e que, por um segundo, me fez perder o fôlego, a calma, a certeza de que está tudo bem, obrigado.  Sem nunca tê-la conhecido antes na vida, conheci a foto da menina de sorriso fácil, alegre, um polegar erguido, os olhos puxados e, logo acima, a frase do pai, atordoante, irredutível, esse tipo de frase que a gente lê e relê à procura do erro, de algo que aponte para uma falha de compreensão.  A frase é: “Minha filhinha morreu”. Je suis esse pai. Se tiver de ser, serei também essa garota que não tive tempo de encontrar. Je suis é uma questão ainda tão complicada. Fico me perguntando se mais gente chega aos trinta e poucos sem saber ao certo quem je suis ou, pior, se algum dia terá a segurança de que je suis do fundo do peito, assim, sem sombra de dúvida, ...

Letras

Um dia saí e haviam trocado as letras de sempre por outras que não conhecia, apenas suspeitava que fossem as velhas, eram diferentes, nem tão novas ou absolutamente velhas, diferentes como são diferentes duas pessoas que se parecem e até têm gostos semelhantes, como passar horas no banheiro lendo os jornais do dia ou bochechar três vezes o antisséptico bucal antes de dormir. Letras que serviam para escrever outra escrita que, vendo agora, eu não estava preparado pra encarar, e digo encarar sem essa concepção bélica, apenas ótica, no sentido estrito, tendo um objeto à frente, no campo frontal, não se furtar a olhar para ele.  As letras velhas antes novas, porém, de repente se transformaram em letras velhas que um dia se pareceram novas. Isto é, voltaram ao que haviam sido antes sem nunca ter deixado de ser o que eram. Não é enigmático, as coisas são assim, vamos descobrindo aos poucos, primeiro aos 20 anos, depois aos 27, em seguida aos 34. As coisas, com essa fa...

Da Ana Martins Marques

É bom lembrar lembranças dos outros como quem se oferece para carregar as compras de supermercado de outra pessoa é bom usar palavras que nunca usamos palavras que só conhecemos dos livros de botânica dos anúncios de cruzeiros dos contratos de locação é bom portanto usar palavras emprestadas nem que seja para lembrar que só temos palavras de segunda mão é bom ficar de vez em quando para dormir na casa de um amigo usar uma velha camiseta dele habitar alguns de seus hábitos usar à noite se possível um de seus sonhos recorrentes é bom encontrar uma vez ou outra pessoas que conhecemos na infância é bom nos esforçarmos por um tempo para parecer com a lembrança delas é bom topar de repente com um tanto de areia no bolso de uma calça jeans que há tempos não usamos seguir as instruções do horóscopo de um signo que rege um dia em que não nascemos vestir-nos de acordo com a previsão do tempo de uma cidade que nunca pensamos visitar é bom ao menos uma ve...

Em 2014

Estou apostando que, mesmo difícil, 2014 será o ano mágico por excelência. Guardo um pouco de esperança para 2015, é verdade, mas confesso: joguei todas as fichas no cavalo que leva esse número. Fui encorajado por um biscoito chinês cuja sorte me pareceu inequivocamente benfazeja: muita coisa pode acontecer. É tempo de foder ou sair de cima. Foder sem sair de cima. Foder sem ficar em cima.