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Letras

Um dia saí e haviam trocado as letras de sempre por outras que não conhecia, apenas suspeitava que fossem as velhas, eram diferentes, nem tão novas ou absolutamente velhas, diferentes como são diferentes duas pessoas que se parecem e até têm gostos semelhantes, como passar horas no banheiro lendo os jornais do dia ou bochechar três vezes o antisséptico bucal antes de dormir.

Letras que serviam para escrever outra escrita que, vendo agora, eu não estava preparado pra encarar, e digo encarar sem essa concepção bélica, apenas ótica, no sentido estrito, tendo um objeto à frente, no campo frontal, não se furtar a olhar para ele.

 As letras velhas antes novas, porém, de repente se transformaram em letras velhas que um dia se pareceram novas. Isto é, voltaram ao que haviam sido antes sem nunca ter deixado de ser o que eram.

Não é enigmático, as coisas são assim, vamos descobrindo aos poucos, primeiro aos 20 anos, depois aos 27, em seguida aos 34.

As coisas, com essa facilidade impressionante que nos faz parar e olhá-las por dois ou três segundos a mais, tornam a ser o que nunca foram.  

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