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Postagens

Ruídos do som

Vi O som ao redor , longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, no fim de semana. Segue alguma opinião. Pontos fracos: o panfletarismo sutil e um sociologismo diluído. Exemplo: uma mulher, interessada em alugar um apartamento, desiste ao saber que ali, no condomínio, se suicidara uma jovem. À escrotidão da personagem (branca, bonita, classe média alta), que tenta barganhar no preço do aluguel e na taxa do condomínio amparando-se no sinistro fato de que o lugar carregava a o estigma do suicídio, contrapõe-se a inocência da filha de 12 ou 13 anos. Postada na varanda do apartamento, a menininha assiste a um garoto de mesma idade, mas classe social inferior, jogar bola no vão do prédio ao lado. O garoto embarca a bola. A garota quer ajudá-lo, mas a mãe a impede. As duas vão embora. A menina, praticamente arrastada. A mãe, enojada. Nova cena de condomínio. Como no primeiro, representantes da classe média alta expõem-se em toda a sua vileza. Os condôminos decidem, quase...

O futuro

"Não é bem um prognóstico — talvez seja mais um desejo —, mas suspeito que a literatura que vem pela frente será interessante na medida em que fizer contraponto a essa narração constante, fragmentada e “em tempo real” de nosso cotidiano, intimidades e opiniões."  Mais aqui .

Jamais demorem a amarrar os cadarços

Fui ali e não voltei. Fiquei na estrada, me perdi, parei pra amarrar os cadarços do tênis enquanto todos caminhavam.  Agachei um pouco, a vista escureceu, não cheguei a desmaiar, mas foi o suficiente pra perder contato visual com o restante do grupo, que se distanciou sem que eu percebesse e no entanto ter sido deixado pra trás não me causou tanto espanto quanto deveria, a julgar por minhas próximas ações, a saber: Desamarrar os cadarços mentalmente, eleger o tronco de uma árvore perto como o mais bonito e intrincado tronco de árvore jamais visto, entender que não há mais nada para entender e, o instante reluzente de tudo isso, checar as horas apenas por gosto e não por pressão, exatamente como quem não espera algo que não virá, mas o que virá, e de maneira tranquila percorre as prateleiras do supermercado detendo-se de tempos em tempos numa embalagem bonita de achocolatado. Logo me pus novamente de pé, a coluna espichada, cabelo assanhado pelo vento. Fazia um dia boni...

Republicando

Do que tô falando quando falo sobre o que falo

Foi a melhor maneira que encontrou, ciente de que a melhor nem sempre é realmente a melhor, mas a possível. Eventualmente não a possível, mas a que está ao alcance. E raramente não ao alcance, mas a que exigirá menos esforço. E muitas vezes menos esforço não significará necessariamente menos energia, mas algo mais fácil, um gasto elevado e imperceptível de energia. E mais fácil nem sempre se confundirá com ausência de dificuldades ou de obstáculos severos, desses capazes de fazer tropeçar, ralar joelhos e cotovelos e lacerar  partes diferentes do corpo  com níveis de crueldade matizados numa escala de zero a 100. Mais fácil, em alguns casos, é como a única escolha possível parecerá.  

Republicando (é o quê que é?, também de novembro)

Coro de respostas. coração é um engenho. Um engenho perigoso, saudoso, oneroso, anguloso. Um engenho recorrente, quente, ausente, pertinente, intermitente. coração é o gênio. Gênio banal, anal, sacal, boçal, causal – dispensa causa, concentra-se nos efeitos. coração é gerência. De temas, nomes, pele, cheiros. Software livre, privado, privatizado, privativo, priápico, programado para matar, matar-se. maltratar-se.

Republicando (2/11/2011)

TEMA DA REDAÇÃO :  Quanto de arbitrariedade e de talento e de ciência há em ser feliz? Instruções::: 1. Escreva uma dissertação com o mínimo de 20 linhas e o máximo de 25 dizendo o que pensa sobre o assunto. Seja sincero, escreva o que geralmente seus professores não pedem que escreva. Recomenda-se rascunhar o texto em um caderno de brochura antes de partir finalmente para a redação em si. 2. Mais algumas recomendações. Use caneta azul ou preta de ponta porosa, jamais rasure ou utilize corretivo, não consulte o colega ou a colega para trocar ideias quanto à forma ideal de apresentar seu trabalho. 3. Qualquer forma é forma, qualquer trabalho é esforço reconhecido pedagogicamente. 4. Lembre-se: seja coerente, coeso e confiável. Nunca conspire, nunca se acovarde. 5. Cumpridas todas as exigências e recomendações supracitadas, tome do papel. Amasse-o. Isso mesmo: amasse o papel. É terminantemente proibido fazê-lo em picadinho ou queimá-lo ou, antes de degradá-lo...