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Você e apenas você tem esse poder

Tem dias que a gente acorda e sente vagarosamente que se o princípio ativo daquele remédio de fato causar metade das conseqüências nefastas que diz causar, ao menos uma coisa realmente estranha terá acontecido, porque, ao longo desse mesmo dia, outras coisas menores mas chatas, menores mas incômodas terão a capacidade inusitada de golpear um homem cujas forças se foram minguando com o passar do tempo e agora, agora neste exato instante, só resta um pouco de sorriso e outro bocado de boa-vontade antes que ele sozinho possa se recompor e voltar a ser não o que era, não o que será, mas aquilo que por muito tempo pretendeu ser. E nunca foi. Tem dias que a gente acorda e se pergunta sem sustos, sem sobressaltos: e se eu apenas dissesse não? Mas o que há é a certeza cristalina, a certeza ancestral: você levantará para mais este dia.

Ele era apenas um bobo à procura da cura definitiva

Então foi exatamente assim que as coisas se deram. Às 3h30, levantou-se da cama não porque assim tenha programado, mas porque o dente doía e dor de dente é coisa absolutamente desagradável. De modo que seguir dormindo tornou-se algo fora do seu horizonte de expectativas. Deitou-se no chão da sala depois de ter apanhado o controle remoto da televisão e sintonizado um canal onde eventualmente há sermões que varam as madrugadas. Neles, um copo com água é figura freqüente. Além do pastor, claro, que despacha cheio de firulas um diagnóstico para cada tipo de problema. Se o aperto é a falta de dinheiro do marido, ele receita: ore. Porque alguém mal-intencionado costurou um pedaço de papel contendo o nome dele dentro da boca de um sapo e o atirou contra a sua porta. Deitado, ele se pergunta como o pastor sabe tanta coisa. Se ainda fosse da geração Google, vá lá. Mas não é. Tem mechas grisalhas, fala estranha. Mas o mais impressionante é mesmo o olhar. Quando se volta totalmente para a câmera,...

É devagar

Não gosto da Céu. Nunca ouvi. Nunca vi. Não pretendo ir ao show. Mas não gosto. Detesto seu nome celestial, o nome do disco – Vagarosa – e o título de uma das faixas – Malemolência . É muita paralisia facial, muita rede balançando, muita lentidão nessa vida frenética. Dá preguiça só de olhar. Céu canta descalça? Se for, piora tudo. Além disso, há essa beleza estonteante expressa sem meias palavras nas fotos de divulgação, esse olhar encantador, esses cabelos cacheados rodopiando na cabeça iluminada dessa nova musa. Tudo tão chato. Mesmo na música, Céu é chato.

"Invisibilidade é comer da maçã novamente"

A quarta entrevista. Oskar pergunta, Henrique Araújo responde. Entre uma coisa e outra, Y. ilustra. Mesmo sem compromisso, mesmo sem paga. Em casa, de esferográfica na mão, sacudiu ideias antigas do aperreio que se dilatava no começo do sono. E rabiscou. Que mais? Finda a entrevista, H. Araújo confessa a Oskar: queria ser três. Ou cinco. Ou vinte. Coisa de bastidores. Cigarro na mão, confessa. Queria ser uma Cacilda Becker. Um Harry Haller estranhamento tardio, lindamente doentio, barbaramente esquisito. Queria ser grupo de teatro. Queria ser torcida organizada. Queria ser muitos. Vendedores de eletroeletrônicos. Atendentes de telemarketing. Estudantes racionais. Sendo um, divide-se como pode. Abaixo, os piores momentos. Oskar - Que há de mentira nisso tudo? Henrique Araújo - Parte da mensagem é mentira. Não a que fica no caminho, que se perde. Mas a que chega. Mentira, invenção, o que seja. É mentira a verdade dita e verdade a mentira registrada, falada ou escrita. Encenada. Ambas s...

Longe, longe

Ora, porá, porá, ora, se a vida não é exatamente essa correria sem rumo, esse farfalhar de folhas sem prumo, essa agitação gigantesca sem pé nem cabeça. Exatamente por isso decido agora parar na próxima esquina e esperar que o islã, que o capital, que o papa e o bispo e o meio ambiente assumam sensatamente que o tempo das grandes transformações já se vai longe.

StarDUST

Fui à igreja ontem. Espanto na sala. Fui, sim. É sempre interessante. É diferente. Há tanta gente acreditando na mesma coisa que saio comovido. Não exatamente comovido. Mas surpreso. Ainda que a premissa, ainda que a premissa... Não quero falar, mas A Premissa é Falha. E quase ninguém se importa com isso. Como se a Mensagem não lograsse êxito porque bem no início da transmissão uma antena danificada não permitisse que os sinais fossem decodificados. Ou como se, por falta de dinheiro ou interesse, do outro lado não houvesse comprado ainda o meu aparelho que converte os sinais em elementos inteligíveis. Por ora, por ora mesmo, é isso.