Acho que não sou tão bom com o pensamento quanto imaginei que seria, quer dizer, gosto de descrever apenas o que vejo, estou sempre procurando a superfície das coisas, com as quais me contento, não quero afundar, ver outros sentidos no que se entrega tal como é, ou tal como penso que é.
Digo é, mas não sei o que é, é um outro, como disse alguém a propósito de qualquer coisa que já esqueci, mas não preciso saber o que é para que tenha uma dimensão do que aquilo que se apresenta significa para mim.
Prefiro ver a compreender, tocar, se for o caso, mas ver me satisfaz, estou do lado de cá da margem, feliz por simplesmente estar ali, testemunhando sem dizer nada.
Meu sonho é habitar um canto, uma quina, uma esquina, na qual uma vez instalado passe desapercebido, não esquecido, mas discretamente ignorado por que circule.
O casco do navio, a árvore de tronco bojudo, a carcaça de um animal antigo, um fenômeno natural, a chuva, o entardecer. Nada disso carece de que o expliquem, basta estar lá para ver do que se trata.
A vida é autoexplicativa, ela existe e pronto.
Tenho revisitado leituras antigas, anotações, caminhos e rasuras. Pistas do que deixei no frontispício, essas folhas que antecedem as páginas de um livro, do que importa num livro, pelo menos assim é que costumamos chamar.
Não é que prefácio ou posfácio não importem, há um tipo de leitor que sempre começa nesse ponto no qual se fixa a placa do começo, é um leitor mais disciplinado, obediente, segue o caminho previsto por um roteiro previamente estabelecido pelo autor da obra ou por quem a organizou.
Eu gosto de saltar, quase nunca leio orelhas ou prefácios, vou direto ao início, dispenso informações biográficas, sumários, resumos e simplificações do enredo, quando há um, quero estar lá e me submeter à leitura sem que ter acumulado dados que me preparem para isso.
Talvez seja coincidência, mas estou cercado de livros que comprei entre 2012 e 2014, de repente os encontro na estante, trago-os para perto e, quando os abro, são todos datados desse intervalo, não digo que tenham sido publicados entre 2012/2014, mas que eu os comprei nesse hiato e agora eles estão voltando para mim, demandando atenção neste momento, mais de uma década depois.
Um jeito de pensar que as coisas também têm seus desejos.
Nem sempre pude comprar livros, eu queria mas não tinha dinheiro, então ou meus livros eram usados, adquiridos em sebos, ou eram da biblioteca, da faculdade ou de outro local.
Às vezes eram livros emprestados, que eu pedia e não devolvia. Tenho uma edição que foi ficando e ficando e, quando vi, quatro anos tinham se passado, de modo que agora a vergonha me impedia de devolver, e não o devolvi.
Isso se estendeu – essa situação de vulnerabilidade financeira, vamos chamá-la assim – até mais ou menos 2009, quando comecei a trabalhar realmente, isto é, quando o que ganhava era suficiente para comprar o que eu queria.
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