Pular para o conteúdo principal

Uma linhagem de sorte

 

Li que privilégio mesmo é ter um avô diplomado, ou seja, que estudou e se formou na faculdade, exercendo uma profissão que, nos tempos idos, normalmente era direito ou medicina ou engenharia, e imediatamente lembrei dos meus avós. Por não tê-los conhecido, até poderia supor que fossem escolados, mestres e doutores em alguma arte, ás de fabulações e engenhosos construtores, mas a verdade é o inverso, eram pessoas como costumam ser os pais e mães de nossos pais e mães, salvo uma exceção.

E agora me pego sopesando a frase, talvez porque os avós formados de que ouvi falar pela primeira vez na vida foram os de um colega da faculdade, um espécime raro para quem eu olhava e diante do qual minha vida até então se contrastava diametralmente.

Os pais médicos ou advogados, não recordo, e, antes deles, a geração mais antiga, de modo a se criar uma cadeia sucessória ao fim da qual era natural que ele também acabasse por escolher a medicina ou o direito, já que “estava no sangue”, como um dote cheio desse inatismo com que os privilegiados justificam seus méritos.

Eu me perguntava por que nunca está no DNA a continuidade de uma linhagem de cobradores de ônibus, de lavadeiras, de sapateiros, de donas de casa, de garçons, de galegos, enfim, toda essa plêiade de ocupações subalternas cuja nomenclatura não tem qualquer brilho nem charme nem rendimento à altura, uma gente sem história.

Pelo contrário, trata-se de ofício ao qual o filho esconde, do qual corre léguas por receio do julgamento, como outro amigo fazia, esse do antigo primário. Seu pai era pedreiro, vejam só, mas ele fingia que era outra coisa. A cena de encontro entre pai e filho na qual o segundo simula desconhecê-lo, na porta da escola, é um exemplo de vergonha de classe que me faz querer chorar mesmo hoje, tanto tempo depois, apenas porque, no ato, eu calhei de olhar para o pai, e o que vi foi uma dor cortante, mas contida, engolida.

Uma “autovergonha”, talvez, um sentimento mal disfarçado porque, no fundo, é possível que o pai imaginasse que o filho agisse assim não porque fosse ruim, perverso, malvado, ingrato, como alguns de fato são, mas porque o veredicto social era muito pesado para carregar, e até nessa hora o pai foi amoroso, o pai pensou no filho antes de pensar em si. Porque entendeu que o filho era muito pequeno e frágil para suportar essa carga que não compreendia.

Éramos todos pobres na escola, verdade, mas uns sempre são mais pobres que outros, algumas tarefas são sempre mais indignas e pessimamente remuneradas do que outras, de sorte que até entre os desclassificados há uma categoria dominante, uma intermediária e uma ralé, reproduzindo uma clivagem que se estende a outros estratos, replicando uma ordem anterior. 

 Reencontrei esse sentimento apenas décadas depois, já formado e recém-ingresso num mundo cujas portas às vezes pareciam um tanto estreitas, sobretudo quando não se tem avós cuja biografia se conta em noites de reunião familiar, a quem se trata por vovô e vovó, galhos de uma árvore frondosa de sobrenome que frutifica em netos e mais netos, como capital multiplicado, rentável e valioso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...