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StarDUST

Fui à igreja ontem. Espanto na sala. Fui, sim. É sempre interessante. É diferente. Há tanta gente acreditando na mesma coisa que saio comovido. Não exatamente comovido. Mas surpreso. Ainda que a premissa, ainda que a premissa... Não quero falar, mas A Premissa é Falha. E quase ninguém se importa com isso. Como se a Mensagem não lograsse êxito porque bem no início da transmissão uma antena danificada não permitisse que os sinais fossem decodificados. Ou como se, por falta de dinheiro ou interesse, do outro lado não houvesse comprado ainda o meu aparelho que converte os sinais em elementos inteligíveis. Por ora, por ora mesmo, é isso.

Tonturas da quinzena. Quero novena exclusiva

A segunda-feira é sempre um golpe duríssimo na vida de qualquer um. Como ser uma pessoa melhor? Como não chorar? O que é a angústia? Por que a sentimos? Ressaca da segunda? E quando vem na terça, o que faço? Mando voltar? Ninguém volta. Ninguém vem. Ninguém vai. Crise do macho, dos trinta, do novo século? Todas as crises juntas? Há verdadeiramente crises ou a vida é isso, movimento desarmonicamente variado? Sem ponto de referência. Sem sujeito. Apenas planos inclinados, lançamentos oblíquos, forças que empurram para cima contrapondo-se às que empurram pra baixo. Tudo isso deixa tonto.

Ainda DFW

Aqui, aqui , um texto fabuloso.

A madrugada é dos crentes

Tem dias que a gente acorda no meio da noite sem motivo, sem desculpa vai e levanta, vai e desperta, vai e não quer apenas aliviar alguma dor, mas encará-la duramente porque na madrugada não há esconderijos, tudo se mostra, tudo é gravidade, e se no corredor ouvem-se passos e se no telhado ouvem-se gritos e na janela entrevêem-se vultos, há que os ouvir, tatear, mesmo sufocando calores da noite, mesmo desejando fortemente que as duas horas que ainda restam sumam feito pó soprado por ventania, porque, se a madrugada tem modos diversos de operar, se ela atravessa medos e agonias é minimamente razoável aceitar tudo que sobrevier. E enxergar o que está adiante, que é existir.

Microcertezas geradas a partir da sondagem fonética

É ela. Sei que é. Tem certeza disso? Absolutamente. Sendo assim, podemos seguir com as perguntas. A que horas tudo aconteceu? Umas sete, sete e meia. Entre sete e meia e oito, se me lembro bem. Posso anotar? Evidentemente. Como ela lhe pareceu? Bonita. Mas não só isso: era especialmente bonita. Continue. Cabelos presos, sorriso largo. Acho que tinha as mãos na cintura. Conversava com outra mulher. Era radiante. A outra mulher? Não, a cena. Ela, o sorriso, os cabelos presos. E você, como se apresentava? Como todos os dias. Vestido normalmente. Nada muito extraordinário. E o que sentiu? Um golpe forte no peito. Já havia sentido isso antes? Sim, mas não com aquela intensidade, que só aumentou quando ela sorriu. Vi que tinha percebido tudo. Tudo? Tudo. O flerte. Imagino. “Tudo” durou uns vinte e cinco segundos. Fiquei parado. Era uma estátua. Depois nos vimos novamente. Quer dizer, eu a vi. Repetição? Não. Ela tropeçou num desnível do piso. Não me viu. Eu estava do outro lado da sala, esc...

Pedras nas mãos

O dia certo, o dia certo para errar e mesmo desejando fazer girar o trinco da porta do banheiro ou entrar por acaso no quarto e protegendo os olhos contra a luminosidade incandescente das horas enxutas desmanchar aquele bolo de roupas sujas e encontrar nele uma chave. A mesma chave que abre a porta secreta escondida atrás do guarda-roupa. É lá que costuma encerrar os arcanos domésticos, é para lá que se dirige sempre que algum disco-voador dispara raios. Feito pássaros de fogo, feito andorinhas nucleares, esses raios o perseguem dia e noite, noite e dia, e mesmo que haja levado a vida inteira ensaiando passos e discursos não há saída. Quase nunca há saída, conclui enquanto do outro lado da mesa ela mastiga uma folha de alface e sorri luzidia. Assim, resta a porta, que ele abre febrilmente. Deitada na cama ela finge dormir mas olha de longe, longe, longe, confundindo o personagem sorrateiro com o mesmo coelho branco que promove estripulias no reino encantado de Alice, mas ela sabe ainda...