O poeta subiu ao palco sem estardalhaço. Depois, aprontou. Arrotou alto, correu, esperneou, gritou, cuspiu no casal que estava no frontstage . O poeta arrasou. Sua performance foi perfeita. Uma musicalidade, uma atitude endiabrada. Cabelos assanhados, blusa amassada, calça rasgada, tênis sem cadarços. O poeta sempre arrasa. Gostei principalmente da parte em que ele grita. Ele olha, mira o papel que tem em mãos, olha novamente a platéia, que se esquiva intuitivamente com medo dos cuspes. Mas ele não cospe. Recusa-se a fazer o que se espera dele. Não cospe. Ele grita. Um urro que varre todo o auditório, que ecoa por todo o centro cultural e chega até a esquina onde ficam as putas à espera dos gringos. O poeta sabe que o momento é mágico, sua consciência projeta-se com alguma dificuldade mas inteiramente dona de si através das caras e caretas. Dos esgares, dos vômitos, dos sustos, dos vários corpos embriagados que lotam o teatro do centro cultural naquele final de sábado. Seu golpe é cert...