Quando menos esperei, fui atravessado por camadas de uma ressignificação afetiva que me fizeram pensar imediatamente que não era sobre isso nem sobre aquilo, não sendo ao final das contas sobre nada, como se supunha que fosse, ou eu supus que fosse.
Ainda assim, me senti tentado a experienciar esses novos horizontes correndo contra os lobos, numa intensa jornada de autocuidado que agora me impunha novas rotinas de balanceamento energético.
Afinal, tinham sido anos e anos de toxicidade dos quais eu saía mais resiliente que nunca, pronto para me recolocar no mercado do progressismo valorativo adotando posturas auráticas e viscerais, mas sem dar tanto na telha.
Performando leituras de cujas páginas eu conhecia apenas de ouvir falar, e às vezes nem isso, me vi de repente nas redes fazendo essa partilha de capital cultural de baixo custo, dando dicas de obras que eu mal compreendia, sugerindo autores fora do cânone que uma amiga de uma amiga gay havia recomendado.
Como consequência dessa roupagem outra que passei a sustentar publicamente, deixei o bigode se sobressair, raspei a barba, aderi às costeletas e às camisas mais frouxas combinadas com bermudas mais justas, que valorizavam minhas pernas, essa parte do corpo da qual os homens se envergonham porque expô-la reduz sua virilidade.
E tudo que eu não queria neste momento de “renaissance” pessoal era parecer novamente um ogro, um desses representantes do “fubanguismo” e do sapatênis “way of life” cuja epítome era estar no dia dos namorados no Coco Bambu.
Essa metamorfose era mais do que emblemática – os mais novos diriam que era lendária, e os mais velhos... Bom, eu não sei que palavra os antigos usariam para designar esse processo por meio do qual o masculino finalmente se redefinia, assumindo-se como uma inteireza cheia de lacunas, uma incompletude repleta de zonas de perigo, uma planura esburacada que cada um de nós precisava pavimentar quando saísse da adolescência, ali por volta dos 36 anos.
Daí que a potência desse novo regime tenha me ajudado a deixar o atoleiro existencial no qual vivi por tanto tempo para me aproximar de uma sensibilidade mais livre, sem as amarras do corpo, na qual eu incorporava modos sem modos, gestos sem medo e por aí vai.
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