Mas não sei ao certo se fujo do hotel ou dos quartos, se da piscina ou da estrada, se dos fundos do restaurante, onde me acomodava tão logo começava a jantar. Eu gostava do ritual, era como um garoto cuja presença tinha de ser evitada, alguém cuja passagem por ali deveria permanecer incógnita, como se fosse um nazistinha caçado pelas autoridades do meu país, um carrasco-mirim, um tipo de delinquente que estava sendo mantido a salvo por uma rede de criminosos que se disfarçavam de garçons enquanto tocavam seus próprios negócios escusos dia e noite.
E eu aceitava de bom grado esse papel, desempenhava-o com prazer porque me fazia crer que eu tinha importância além da desimportância de ser um filho comendo nos fundos do restaurante, atrás do vidro, protegido por esse biombo, dividindo o espaço com mais ninguém por cerca de meia hora ou mais, quando então eu levantava e entregava o prato e depois saía com roupa de frio para a noite da serra.
Encontrava os demais garotos já ao redor de uma vela ou de uma lanterna, de todo modo um foco de luz que era como uma catalisador de pensamentos intrusivos que púnhamos em prática sem saber ao certo do que se tratava, apenas que as ideias tinham essa urgência infantil que costumam ter.
Que ideias eram essas, eu não lembro, mas tinham essa natureza proibida, e dizer isso soa como se de fato fôssemos criminosos, mas talvez não se tratasse disso. À exceção de mim, evidentemente, que tinha o rosto exposto e o nome procurado pela polícia, o nazistinha está foragido, qualquer informação que ajude nas investigações será importante para levar até o paradeiro desse garoto, olhem bem para o rosto dele, vejam sua boca, seus olhos, o cabelo cortado como personagem de super-herói da TV, a camisa regata que detestava usar, a sandália do He-Man, reparem que as orelhas são pequenas e coladas à cabeça, o que pressagia a tendência a descumprir as leis, enfim, toda sorte de detalhe que ajude a elucidar os crimes praticados por essa criança, não se enganem com o jeito e a maciez da voz, não se deixem levar pela lábia desse menino que tão cedo descobriu como se esconder onde ninguém o encontre.
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