Houve um tempo em que a escalação da seleção brasileira era um amontoado de apelidos sonoros e afetivos, quase sempre dissilábicos, de Pelé a Didi, de Vavá a Dodô, incluindo-se Tostão e os mais recentes Zinho e Kaká.
Também lembro de Cicinho e dos Ronaldinho, que, se não eram apelidos ao pé da letra, carregavam a força intimista do diminutivo, que apazigua e suaviza o tratamento, aproximando o atleta do torcedor nesse país de cordialidade exagerada.
Daí que, na véspera da Copa, com o meu interesse aumentando aos poucos, liguei num desses programas de TV que cobrem o noticiário diretamente dos Estados Unidos. Não reconheci ninguém entre os convocados pelo técnico italiano.
Mas não foi isso que me surpreendeu, já que deixei de acompanhar o dia a dia do futebol há algum tempo. A novidade foi a total ausência dos apelidos estampando as camisas amarelas.
O repórter, que desfiava os nomes dos agraciados por Ancelotti, não parecia anunciar o time de jogadores, mas a lista de chamada escolar ou do serviço militar obrigatório.
Assim, passei a conhecer Gabriel Magalhães, Douglas Santos e Danilo Santos, com o sobrenome forçosamente informado como se fosse vital para seu reconhecimento, e não sua competência com a bola.
A eles se somaram os igualmente solenes Bruno Guimarães, Igor Thiago e Matheus Cunha. Muito prazer.
Entendam. Não quero sugerir que a razão de nosso insucesso dentro de campo tem que ver com o fato de os jogadores se apresentarem desse jeito no mercado globalizado, em que cada um é sua própria marca e todos são CEOs de si mesmos, e não como meninos que aprenderam a jogar nas ruas calçamentadas do Brasil.
Afinal, lá se vai um quarto de século desde o último título da Copa, quando a canarinho tinha Dida, Ronaldinho Gaúcho, Juninho Paulista, Vampeta, Ricardinho e Luizão (um aumentativo com função familiarizante, tal como em Ronaldão).
Mas é possível que esse divórcio da torcida com a seleção, e do jogador em relação ao seu torrão natal, se expresse dentro do gramado como uma carência de laço com sua gente, o que pode afrouxar seu desejo de vitória.
É uma hipótese com cheiro de sociologia de botequim, mas vou sustentá-la assim mesmo.
Desobrigado de “fazer o seu povo feliz”, como sonhou um dia David Luiz – outro de nome composto cuja passagem pelo Brasil foi catastrófica –, esse jogador “desapelidado”, mais preocupado com a gestão profissional do seu capital pessoal, não se sente verdadeiramente comprometido com sua raiz – suas cores, sua língua, seu futebol.
Ora, um atleta sem apelido na “pátria de chuteiras” rodrigueana é um contrassenso ambulante, um paradoxo, um gol contra. É Buchecha sem Claudinho (casamento feliz de apelido com diminutivo).
Em 1958 havia Zito e Didi, além de Pelé, que, se jogasse hoje, entraria na partida como Edson Arantes, tal como Zito seria José Ely de Miranda.
Quatro anos depois, tínhamos Vavá e Garrincha, que, catapultado para a contemporaneidade, atuaria como Manoel Francisco dos Santos, e suas pernas nem seriam tão tortas.
Em 1970 brilharam Tostão e Pelé novamente.
Passou-se então uma era até o tetra, que chegou aos trancos e barrancos pelos pés de Romário (de Souza Faria) e Bebeto (José Roberto Gama de Oliveira). Não era lá muito habilidoso aquele selecionado de 1994, mas tinha o mais importante, jogadores com apelidos: Viola, Branco, Cafu, Dunga, Mazinho, Jorginho e, claro, Ronaldão.
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