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Banho na Barra

 

Atravessávamos de barco de ponta a ponta, do outro lado o banho era mais fácil, não sei se mais fácil, mas era o nosso canto da praia, era a nossa praia, não íamos para outra praia, apenas essa.

O pai não estava, somente a mãe, eu e ela, os irmãos não tinham nascido.

O melhor era essa travessia, no entanto, o barulho do motor, o flutuador, o condutor, punha a mão na água para sentir a onda à passagem do barco.

Do outro lado a praia era como qualquer outra, lembro que um dia um desses barquinhos menores perdeu o controle e avançou sobre uma criança que estava na beira se banhando.

Como um barco perde o controle?

Houve gritaria, um susto, como numa cena de Tubarão, quando as famílias estão deitadas na areia observando as meninas e os meninos brincarem, mas em vez disso a mancha de sangue era por outro motivo, não havia uma criatura atacando, apenas o motor do barco que havia se desgovernado.

A mãe também gritou? Não lembro.

Eu estava na areia, não corri perigo, ou corri porque estava na areia e poderia estar lá na hora?

Havia chance de ter sido comigo, mas não foi.

A criança morreu. Foi uma comoção.

Então poderia ter sido comigo, era a segunda ou terceira vez em que coisas do tipo aconteciam perto de mim, como quando um menino caiu numa cacimba perto da qual eu sempre corria quando chovia.

Ele caiu, não eu.

Ele morreu afogado. Tínhamos a mesma idade, morávamos na mesma rua.

Voltávamos de ônibus no final da tarde, dormia durante todo o trajeto, cansado e com sono, a pele queimada mesmo com o todo o cuidado. Em casa continuava a dormir e acordava desorientado à noite, que dia era aquele e qual o ano?

O que havia andado fazendo? O incidente do barco como um pesadelo, de súbito o peso: poderia ter sido comigo.

Procurava a mãe, mas não a encontrava, às vezes eu a chamava pelos cômodos mas ou ela estava e não conseguia ouvir ou não estava, e se não estivesse, por onde estaria?

Nunca soube por onde a mãe andava quando não estava em casa e eu a procurava sem que me ouvisse. Quis lhe perguntar, mas sempre tive vergonha, uma bobagem.

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