Pular para o conteúdo principal

Ao farol

 

Foi apenas quando o farol velho reabriu que me dei conta de que havia estado tanto tempo fechado para qualquer uso, seja o turístico ou o de morada para quem não tem, um monumento ao esquecimento na cidade cujo núcleo de povoamento já antecipava sua vocação futura: o aterro.

E então lá se erguia a edificação, estridente como um sol de outubro, recém-surgida no horizonte da paisagem urbana e cultural, o ato de reentrega cercado desses ritos um tanto teatrais ao demarcarem uma autoridade que apaga o rastro do que veio antes.

Na sobreescrita do gestor de plantão, o gesto de mando sobre a história, a pedra angular a partir da qual pretendem que o enredo seja contado de agora em diante, nem antes nem depois, porque a página que importa é a que se abre desde o instante em que o poder troca de mãos.

Uma torre recortada contra o céu azul da capital cearense, triangulando com Iracema e Mara Hope a mesma cena, um processo erosivo de fatores antrópicos cujo ponto de partida é o mesmo em Fortaleza há quase 300 anos.

O povoado esquecido, deixado para trás porque dele não se tinha notícia de qualquer riqueza mineral ou vegetal, apenas a terra sem préstimo para o plantio ou o extrativismo, que não valia o esforço de deitar raiz. Um torrão sem atrativos, como se diz, ou terrinha para a qual se retorna sem querer, como gosta de registrar o nativo em chave de autocomiseração.

Ainda não fiz o passeio ao farol, o novo, porque suponho que seja assim que passarão a chamá-lo, de modo que o velho fique para o passado, lugar das coisas destituídas de importância entre nós, o equivalente a rebolar no mato.

O novo, então, começa sua contagem neste momento, na sua nova encarnação, porque também os objetos e as instituições medem seus anos não por seu tempo, mas pela menção dos nomes na oficialidade dos diários.

Amarelo-vivo, uma gema ao meio-dia, o farol é tão luzidio que mesmo de noite, com as nuvens encobrindo a lua, dispensaria o holofote que projeta o jato óptico muitos metros mar adentro.

O que esse farol aponta, para onde orienta, a quem serve de guia na alta madrugada?

Não sei por quanto tempo esteve apagado, enterrado sob camadas de esquecimento que quase estragam tudo de uma vez, quando de repente as obras da memória e o arquivo reemergem por força de suas estruturas, pela renitência, pela inércia da substância, reaparecendo e exigindo esse trabalho de releitura da escrita-rasura, da frase-fragmento, do texto-resíduo.

Resgataram-no simplesmente porque se recusou a morrer, e assim é com tudo, o que fica é tão somente o que não teve tempo de ir embora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...