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BBB dos descancelados

 

Se existe alguma linha que explique a trajetória dos participantes do BBB 22, é talvez a do descancelamento. De Pedro Scooby a Arthur Aguiar, o programa chegou ao fim indultando personagens cujo ingresso na edição havia sido antecedido por um passivo de conduta masculina tóxica.

Eram fortes candidatos ao cancelamento caso já não fossem canceladíssimos, por razões diversas, e sua participação representasse, na verdade, uma tentativa de apresentar “um outro lado” que não aquele já conhecido pelas redes sociais.

O que se deu, então? Um trio de homens na final quer dizer bastante coisa num produto como o BBB, num momento como este, com eleições à porta e o país às voltas com o descancelamento mobilizado por Bolsonaro de um ex-deputado federal que se comporta no limite da delinquência, um tipo bem-acabado no ultra-direitismo brucutu.

Mas pode também não querer dizer nada, e o fato de que a “brotheragem” tenha se imposto ao núcleo feminino seja apenas contingencial, ou seja, fruto da casualidade, um arranjo que, por natural e leve, acabou por encantar o público, que viu nos marmanjos um exemplo de candura e bom-mocismo redentor e decidiu lhes conceder o perdão.

Vejam, não são tão feios assim, eles sorriem e brincam entre si, se abraçam, quase se beijam, como filhotes interagindo na vitrine do petshop, demonstrando um padrão de troca de carinhos e carícias entre homens com que a média das pessoas não está habituada.

Há nisso tudo um cálculo, uma deliberada encenação televisiva, de modo a performar para a audiência os novos papéis de macho no BBB, sempre uma vitrine do “hetero topismo” histérico?

É difícil dizer, mas convém notar que a trinca não é qualquer uma, mas, antes, era formada por representantes de uma classe mais preparada e ciosa de certos tropos do debate intelectual e dos temas cantados pelo feminismo.

Logo, não estavam ali desnudos e desarmados, mas previamente sabedores do que sucede com gente como eles e da função secundária que o programa lhes reserva já há algumas edições, nas quais as mulheres foram sempre protagonistas.

Mas não nesta. E, sobretudo, não depois do BBB 21, uma das exibições mais bem-sucedidas nestes mais de 20 anos de contínua exposição do elenco a cada mês de janeiro.

Que o público esteja sempre preparado a perdoar com mais facilidade e rapidez homens brancos e a lhes passar a mão na cabeça, isso é ponto pacífico.

Que um enlatado como o BBB se encerre sem que haja uma figura cancelada e sendo disputado unicamente por esses mesmos homens, isso talvez queira dizer alguma coisa que ainda não sabemos.

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