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Cancela-te a ti mesmo

Todes nascemos cancelados aos olhos punitivos do Criador e apenas Ele, do alto de seus milhões de seguidores e de sua onipotência multiplataforma, está em condições de cancelar ou não.

Cabe a nós, ovelhas canceláveis neste vale de lágrimas e likes, esperar pelo Dia do Cancelamento Final, quando as almas tormentosas terão suas máculas sopesadas por uma entidade judicativa que fará as vezes de Grande Irmão, uma inteligência artificial e transcendental que dirá, em português castiço, quem entre todes permanecerá na Casa do Senhor, esta sim a mais vigiada do Brasil, de onde não se escapa nem foge senão por meio de sua autorização.

Apenas esse cancelamento preventivo assegura o reconhecimento do pecado original, ponto crucial para a salvação. Nesse voluntariado, nessa oferenda que assume de vez a subalternidade patente da carne, talvez você possa ganhar a simpatia do virtual público pecador e safar-se da fogueira.

Ora, o autocancelamento é de longe medida profilática que apazigua não só o juízo, mas também as redes. Afinal, não se cancela o que já nasceu cioso de seu estatuto de cancelado, privando esse “outre” do gozo da segregação segregando-se antecipadamente, reconhecendo de si para si que não está à altura da malta cuja posição predileta é sempre essa do dedo em riste.

Assim, aceita de bom-grado o conselho que te dou e te cancela enquanto é tempo, antes que o/a encontrem em falta e o denunciem à audiência, para o teu evidente opróbrio. Poupa-te desse vexame expondo-se logo ao vexame, fazendo-se desde já alvo de ignomínia.

Aceita a baixeza do teu caráter e a vilania do teu espírito, e depois ri. Sim, ri de ti, ridiculariza-te ao extremo, eviscera-te sem assombro, como se pusesse um intestino ao avesso para que todes vejam do que é feito por dentro.

E então aguarda o veredicto, que não será brando, mas será sempre inferior ao que tu mesmo aplicas em ti.

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