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Dia do voto

 Voto no mesmo lugar há mais de 20 anos, uma escola de bairro de periferia com muro amarelo e verde descascado ao lado de uma feira, ou a feira é que lhe faz vizinhança, não sei quem chegou primeiro. Escola pública, nota-se logo na entrada e pelo nome, que homenageia um deputado. 

Iniciais seguidas de um Carvalho ou Bezerra ou Pereira, esses sobrenomes típicos e sumamente comuns que batizam de hospitais a viadutos.

Não tenho mais conexões com o bairro. O bairro inteiro na verdade sumiu e em seu lugar construíram um bairro cenográfico da noite para o dia. Logo, todo mundo que encontrei no domingo é figurante, gente paga para desempenhar seu papel e simular um passado.

O vendedor de picolé, o traficante na esquina balançando uma chave de camiseta e boné, o fiscal da sala, o mesário que me olha esquisito como se me conhecesse, mas não me conhece porque ele é um ator que nasceu em 1992 e dirige Uber nas horas vagas.

Minha família já foi embora do bairro, mesmo os amigos não estão mais ali. É um lugar estrangeiro, uma ruína, salvo pelo que permanece. E de tudo há sempre algo que se preserva.

Por que volto?, eu me pergunto maldizendo o sol, por que não transferir o endereço do voto para uma seção mais próxima da minha casa, uma aonde eu possa ir andando e parar pra tomar um café ou beber uma cerveja sem medo de que me assaltem ou que me reconheçam, o que dá no mesmo.

Tenho mais receio de que me devolvam ao passado do que de perder a carteira ou o celular.

O voto é rápido, aperto as teclas maquinalmente, sem paixão, uma depois da outra, dois números. Confiro rapidamente a foto e então confirmo, a caixa branca emite o sonzinho que ouço e gosto há 20 anos.

Penso em colocá-lo como toque do celular, mas talvez parecesse estranho e não quero, agora aos 40, fazer o tipo que envelhece cultivando pequenos hábitos exóticos que fazem as crianças olharem torto pra gente numa fila.

A amiga da minha filha de repente dizendo: o pai dela tem um toque de urna eletrônica no telefone. Deus me livre.

Sou comum, ordinário, e quero continuar assim.

Mas gosto da urna eletrônica, seu visual tipicamente oitentista, um objeto fora de época, deslocado neste agora em que me vejo parado tentando reconhecer a pessoa à minha frente que me devolve os documentos.

Seria a irmã ou a prima do Carlos da oitava C?

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