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Livros que fogem

Passo a manhã à procura de um livro. Reviro lombadas, afasto colunas inteiras, separo antigos de novos, mexo com o que estava assentado há meses ou anos, sujo as mãos com poeira e depois as lavo, mas se conservam ásperas mesmo depois de enxaguá-las com sabonete.

Não o encontro, embora tenha certeza de que está aqui. Talvez na sala, no quarto ao lado. É possível que o tenha emprestado, que o tenham roubado? Tento lembrar de seus contornos, o título é uma pista, mas o nome é insuficiente, é material por demais resvaladiço. Num labirinto, o nome é de pouca valia. E o quarto tem se tornado como um círculo dentro de outro dentro de outro, espiralando-se ao infinito.

Ultimamente tenho perdido mais do que posso lembrar, então maldigo a desordem do quarto. Nenhuma disciplina ordena esses livros, nenhum protocolo de arrumação, cada qual disposto como convém, solto ao acaso, deixado de costas ou frente à própria sorte, enfiados em caixas remetidas por mim mesmo vindas de outro mundo. E aí, quando careço de achar o que preciso, levo horas agachando-me e levantando, suspendendo e devolvendo, numa coreografia que tem se repetido cada vez mais.

A filha se aproxima, o papai está procurando livro de novo. Digo que sim e peço sua ajuda, mas ela se aborrece depois de cinco minutos e sai. Então começo a pensar que esse desarranjo é proposital, que mantenho o quarto assim para que possa me perder à procura do que talvez encontre, talvez não. Esse livro, por exemplo. Tenho certeza de que o tenho aqui, consigo mesmo recordar quando o comprei na livraria e o trouxe para cá, embalado na sacola, a nota contendo preço e horário, uma operação inscrita na memória como gesto entre o maquinal e o afetivo.

Vejo a mão tocando a superfície lilás e os olhos percorrendo a página. Está por aqui, murmuro, como se o farejasse e o sentisse escondido, rindo num canto, feito um desses gatos de contos de fada que ficam à espreita numa brecha da casa.

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