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A política do barraco

 O que é o barraco senão a política por outros meios? Sua natureza: altercação física e/ou verbal, relação conflituosa cujo desfecho é não raro as vias de fato que, por sua vez, são por si mesmas um mistério. 

Afinal, por que se diz “de fato” de algo como as vias, que não admitem uma acepção assim tão preto no branco? Sabe-se lá.

Como solução política, portanto, o barraco tem se mostrado cada vez mais frequentemente uma chave resolutiva e, mais importante, catártica, numa teatralização violenta do cotidiano nacional em que os impasses do país se encenam à luz do dia ou da noite, mobilizando as paixões e os atavismos nacionais.

Seja nas áreas comuns dos condomínios ou na rua, quando o brasileiro recorre ao expediente mesmo se não esgotadas todas as alternativas à mão: a conversa, o silêncio, a intermediação cautelosa e bem-vinda de outrem, o simples dar de ombros e procurar outro rumo, evitando-se a confrontação odiosa com o semelhante.

Não. Saltamos essas etapas e passamos ao que interessa, driblamos as preliminares e mergulhamos de cabeça no buraco negro da ferida aberta que é o enfrentamento, o olho no olho, o ground&pound social.

Em resumo, uma UFCização da vida.

Há quem diga que estamos mais irascíveis, irritadiços, e então atribuem as causas dessa suscetibilidade à pandemia, que confinou a todos e daí começamos a nos portar como crianças que não dormiram bem e esperneiam pelo shopping, arrastadas pela manga da camisa por mães e pais prestes a explodir de raiva.

Mas talvez não seja apenas isso. Talvez a doença tenha sido não a causa, mas o pretexto, o estopim, a desculpa para que esse substrato violento emergisse ao natural, no espontâneo de todo dia.

Mais que política, o barraco é nossa poética.

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