Pular para o conteúdo principal

A resposta de L

Antes de que nos falássemos, porém, houve esse momento em que L meio bêbada quis fazer acreditar que estava muito triste por causa de algo que não queria dizer. Mas L não se entristece de fato, é uma mulher muito forte e segura que ri e macera toda a matéria com as mãos e os pés.

Eu lhe disse isso, usei a imagem certo de acharia bonita. Afinal concordamos em que os pés e as mãos, as extremidades do corpo, desempenham papel fundamental na felicidade. Sofremos sempre e nos alegramos, e toda alegria e agonia começam pelos pés, começam pelas mãos.

Então lembramos brevemente de um episódio e depois de outro nos quais confirmávamos a valência dessa verdade segundo a qual há nas pontas de cada um modo de decifrar o futuro, nas mãos carregamos mais certezas que dúvidas, nos pés conduzimos mais acasos que rotas. Não surpreende que leiam as palmas à procura de significados, que dedilhem as linhas e nessas linhas adivinhem sentidos que permanecem ocultos.

Palmas e plantas, ela responde, e o silêncio que se segue é bastante para preencher um ano inteiro.

Essa tristeza é fingimento, falei de repente a L, que não se abalou. Fingir é parte do sentimento, devolveu, numa dessas boutades que costuma atirar quando está de bom humor e ninguém é capaz de convencê-la a não abrir aquela porta.

No fundo, porém, sabia eu e sabia ela que nada que fizéssemos mudaria um só centímetro do que iria acontecer. A morte ilumina como farol. A vida é esse pavimento sobre o qual deslizamos de barriga. Como uma brincadeira de criança que apoia os pés contra a parede de casa e toma impulso até chegar ao outro lado. A gente se gasta para chegar ao outro lado, mas chega.

Pergunto então a L se voltou a correr, se tem tomado sol, se costuma olhar a janela e na janela o fundo do tempo e no mais longe que a vista possa alcançar uma saída para tudo. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...