Pular para o conteúdo principal

Uma conversa com Pizarnik

Uma mistura de coisas, roupas, pedaços de livros, cacos de fotografias que foram se juntando e agora formam um mosaico de vidas que antes eram partes móveis de outras igualmente partidas e juntadas ao gosto da sorte, tudo por obra e força de quase nada, tudo em perfeita harmonia com o descaso do acaso.  

Uma vida em mistura, rotinas, horários, coisas que se grudam por força de atração gravitacional, horas que engordam de tarefas que precisamos executar porque estamos cheios de uma matéria que não sabemos, mas talvez seja felicidade. Uma felicidade que, ninguém suspeita, é a grande novidade. E uma novidade que, mal sabem os que falam ou os que calam à passagem do amor, também tem sabe a tudo que pede que fique.

Uma coisa de imiscuir-se no outro sem ter onde começar, tampouco terminar. Uma vida cada dia mais em compasso de outra coisa não sabida. Uma vida sem medo, um amor que não é medo nem morte, mas amor. Um medo de não amar o amor que não é medo. Uma morte que não amar é. Um medo de morrer antes do amor. 

Mas aqui reescrevo o poema de Pizarnik que acabo de ler. Rasuro eu mesmo tudo que havia dito e pensado sobre um feriado no qual celebramos ou choramos os mortos.

Os mortos de amor, os trágicos e velhos, os mortos de sobrecasaca, os mortos de cansaço, os mortos por engano e os mortos muito jovens, os mortos por dolorosa despedida e os mortos por cansarem de esperar, os mortos que não esperaram e ainda estão vivos, os que se recusam a morrer e os que morreram desapercebidamente.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A mancha

Vista de longe, em seu desenho irregular e mortiço, a mancha parecia extravagante, extraterrestre, transplantada, algo que houvesse pousado na calada da noite ou se infiltrado nas águas caídas das nuvens, como chuva ou criatura semelhante à de um filme de ficção científica. Mas não era. Subproduto do que é secretado por meio das ligações oficiais e clandestinas que conectam banheiros ao litoral, tudo formando uma rede subterrânea por onde o que não queremos nem podemos ver, aquilo que agride os códigos de civilidade e que é vertido bueiro adentro – o rejeito dos trabalhos do corpo –, ganha em nossos encanamentos urbanos uma destinação quase mágica, no fluxo em busca de um sumidouro dentro do qual se esvaia. A matéria orgânica canalizada e despejada a céu aberto, lançada ao mar feito embarcação mal-cheirosa, ganhando forma escura no cartão-postal recém-requalificado e novamente aterrado e aterrador para banhistas, tanto pela desformosura quanto pelos riscos à saúde. Não me detenho na es

Museu da selfie

Numa dessas andanças pelo shopping, o anúncio saltou da fachada da loja: “museu da selfie”. As palavras destacadas nessa luminescência característica das redes, os tipos simulando uma caligrafia declinada, quase pessoal e amorosa, resultado da combinação do familiar e do estranho, um híbrido de carta e mensagem eletrônica. “Museu da selfie”, repeti mentalmente enquanto considerava pagar 20 reais por um saco de pipoca do qual já havia desistido, mas cuja imagem retornava sempre em ondas de apelo olfativo e sonoro, a repetição do gesto como parte indissociável da experiência de estar numa sala de cinema. Um museu, por natureza, alimenta-se de matéria narrativa, ou seja, trata-se de espaço instaurado a fim de que se remonte o fio da história, estabelecendo-se entre suas peças algum nexo, seja ele causal ou não. É, por assim dizer, um ato de significação que se estende a tudo que ele contém. Daí que se fale de um museu da seca, um museu do amanhã, um museu do mar, um museu da língua e por

Cansaço novo

Há entre nós um cansaço novo, presente na paisagem mental e cultural remodelada e na aparente renovação de estruturas de mando. Tal como o fenômeno da violência, sempre refém desse atavismo e que toma de empréstimo a alcunha de antigamente, esse cansaço se dá pela falsa noção da coisa estudadamente ilustrada, remoçada, mas cuja natureza é a mesma de sempre. Não sei se sou claro ou se dou voltas em torno do assunto, adotando como de praxe esse vezo que obscurece mais que elucida. Mas é que tenho certo desapreço a essas coisas ditas de maneira muito grosseira, objetivas, que acabam por ferir as suscetibilidades. E elas são tantas e tão expostas, redes delicadas de gostos e desgostos que se enraízam feito juazeiro, enlaçando protegidos e protetores num quintal tão miúdo quanto o nosso, esse Siará Grande onde Iracema se banhava em Ipu de manhã e se refestelava na limpidez da lagoa de Messejana à tarde. Num salto o território da província percorrido, a pequenez de suas dimensões varridas