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Cemitério

Hoje talvez chegue diferente ao cemitério. Na última vez, lembro de ter me mantido distante. Era agosto, talvez setembro, e brinquei com minha filha entre túmulos. Corremos um pouco. Logo encontramos um que tinha uma casinha e, dentro dela, duas bonecas. 

Cozinha, sala, área de lazer, quartinho de criança e uma cama. Ficamos um tempo ali olhando os móveis e os confrontando com a foto da menina morta. Não recordo seu nome, apenas que tinha quatro anos. 

Quis explicar a minha filha por que havia um brinquedo no cemitério. Não soube dizer se era certo nos divertirmos com a casinha de bonecas que enfeitava a lápide. De todo modo, era a única distração para uma criança que visita um lugar como esse. 

Mas isso foi antes. Hoje voltaremos lá. É outro tempo, diferente de agosto e setembro, quando me sentia suspenso por um fio que ameaçava se romper a qualquer momento. Foi um alívio estar entre pessoas já plenamente passado. 

Hoje talvez encontremos outras coisas. Talvez fiquemos olhando. E depois façamos como na última visita. Um picolé pra cada um. Fim de passeio.

Assim nos relacionamos com os mortos na família. Algo de utilitário, de sentir que precisamos mais deles, mas que não podemos nos demorar muito, não podemos ficar muito tempo sobre o próprio pranto. Do contrário gostamos, e gostar significa sentir a falta. E a falta dói. 

Assim fugimos da dor como o diabo da cruz. Dizemos coisas vagas como saudade e falta e depois vamos embora. 

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