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Família iii

Hoje, quando nos reunimos, sempre lembro desses momentos nos quais a gente prendia a respiração e esperava que tudo passasse. Eu era mais velho, então as coisas aconteciam num universo diferente pra mim. Meus irmãos tinham as boy bands e os amigos do bairro novo com que se entreter.

Eu tinha terminado um namoro – ela tinha terminado comigo. E precisava lidar com a separação dos meus pais.

E fiz isso da maneira mais inadequada: esqueci. Coloquei de lado e me concentrei em futebol de botão, videogame, uma nova namorada e sair da escola. Depois descobri que podia ler e me esconder de tudo nos livros. Só finalmente aprendi a me esconder de fato, mas hoje não consigo tão bem.

Quando peço pra minha filha de três anos se esconder na casa, ela corre e procura um lugar fácil. Nunca é um esconderijo distante ou dentro do guarda-roupa ou no cômodo mais escuro. É sempre visível, basta esticar o pescoço e a encontro. Espicho a vista e alcanço um pezinho ou os caracóis dourados dos seus cabelos. E, quando nada disso funciona, ela mesma cuida em se entregar e diz: papai, estou aqui. Vem me encontrar. 

Nessas horas imagino seu sorriso apreensivo considerando-se a salvo dos outros e, ao mesmo tempo, precisando de todos. Sempre penso que, mais que qualquer coisa, ela tem medo, como eu tinha, de nunca ser encontrada. Medo de se extraviar na brincadeira. 

Então torna tudo mais simples. Oculta-se, mas de modo a que possamos achá-la rapidamente. Como se dissesse: vamos jogar, mas não quero seguir totalmente as regras e correr o risco de me perder. 

Quero que me encontrem. 

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