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Adeus à linguagem



Olha, eu disse pra ela, tem uma cena que não entendi bem.

Eu não entendi nada.

Eu também não.

Estávamos falando do novo Godard.

Falar novo Godard já é meio pernóstico, eu acho, pressupõe um Godard mais velho, ou os filmes mais antigos, aos quais eu teria assistido e compreendido e se ela quisesse agora eu até falaria a noite inteira sobre uma cena específica de um desses filmes.

Acontece que não vi o Godard antigo, apenas o novo, e o novo eu não entendi nada, mas digo que não entendi uma cena, as demais, pode perguntar.

Então e aquele cachorro?

Silêncio.  

Eu minto, minto pouco, mas minto.

Eu minto muito, mas apenas pequenas mentiras relacionadas ao social, tipo se conheço Tolstoi ou Cervantes.

Falar o novo Godard, por exemplo, e o antigo também, isso ajuda com as meninas?

Depende, se entendeu e quer falar, não ajuda, se não entendeu nada e mesmo assim quer falar, ajuda.

Eu não entendi nada.

Eu também não.

Trocaram sorrisos e um aperto de mãos.   

Dias depois, leu uma crítica bem fundamentada do novo filme do Godard e ficou achando que se perdeu no cheiro dela e não prestou atenção ao filme, mas tudo bem, iria assistir novamente, agora sozinho, e quem sabe pudesse explicar depois o que era aquele cachorro. 

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