Pular para o conteúdo principal

Listas de areia



A lista de tarefas incluía também escrever o que quer que fosse, mas aí, na hora marcada, no lugar combinado, mesmo com a vontade guardada, deu pra trás, esfriou, não conseguiu. O clássico broxar, tomar ares de broxa, o pincel usado para paredes. Ou brochar, o contrário de desabrochar, involuir, decrescer.

Pensou que listas de tarefas criam parâmetros para o dia, que ganha ares de produtividade, que faz bem a quem, como eu, como ele, precisa sentir intimamente que ao cabo de 24 horas algo ou alguém justifica tudo isso.

Sim, tudo isso.

O que produzi de importante hoje? Videogame, banho, comida, sexo, leitura, escrita, sono, reclamações, louça, os dentes escovados, o dinheiro gasto no táxi e por aí vai.  

O dia divididinho bonitinho entre as coisas que quero fazer e as que tenho de fazer, entre as que não quero e as que preciso, entre as que não preciso mas seria interessante tê-las  e as que, mesmo sem precisar, quero com urgência.

Exatamente como nunca achei que faria, tenho agora uma lista nas mãos e enquanto olho pra lista tenho ganas de desfazê-la em pedacinhos e os pedacinhos em pedaços menores ainda.

Até que não reste muito ou quase nada do que planejei, até que reste o imprevisto.

Mas, de repente, lembro que, em algum momento, anotei num canto de papel: ceder ao imprevisto e, um pouco mais abaixo, a seguinte observação: ainda que tenha dificuldade de identificá-lo.

Na dúvida, dobrei tudo bem dobrado e guardei no bolso da calça junto com uma conta de cinco meses atrás e um punhado de areia da praia.

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto de vida

Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...

Cidade 2000

Outro dia, por razão que não vem ao caso, me vi na obrigação de ir até a Cidade 2000, um bairro estranho de Fortaleza, estranho e comum, como se por baixo de sua pele houvesse qualquer coisa de insuspeita sem ser, nas fachadas de seus negócios e bares uma cifra ilegível, um segredo bem guardado como esses que minha avó mantinha em seu baú dentro do quarto. Mas qual? Eu não sabia, e talvez continue sem saber mesmo depois de revirar suas ruas e explorar seus becos atrás de uma tecla para o meu computador, uma parte faltante sem a qual eu não poderia trabalhar nem dar conta das tarefas na quais me vi enredado neste final de ano. Depois conto essa história típica de Natal que me levou ao miolo de um bairro que, tal como a Praia do Futuro, enuncia desde o nome uma vocação que nunca se realiza plenamente. Esse bairro que é também um aceno a um horizonte aspiracional no qual se projeta uma noção de bem-estar e desenvolvimento por vir que é típica da capital cearense, como se estivessem oferec...

Atacarejo

Gosto de como soa atacarejo, de seu poder de instaurar desde o princípio um universo semântico/sintático próprio apenas a partir da ideia fusional que é aglutinar atacado e varejo, ou seja, macro e micro, universal e local, natureza e cultura e toda essa família de dualismos que atormentam o mundo ocidental desde Platão. Nada disso resiste ao atacarejo e sua capacidade de síntese, sua captura do “zeitgeist” não apenas cearense, mas global, numa amostra viva de que pintar sua aldeia é cantar o mundo – ou seria o contrário? Já não sei, perdido que fico diante do sem número de perspectivas e da enormidade contida na ressonância da palavra, que sempre me atraiu desde que a ouvi pela primeira vez, encantado como pirilampo perto da luz, dardejado por flechas de amor – para Barthes a amorosidade é também uma gramática, com suas regras e termos, suas orações subordinadas ou coordenadas, seus termos integrantes ou acessórios e por aí vai. Mas é quase certo que Barthes não conhecesse atacarejo,...