Pular para o conteúdo principal

Apenas um

Eu podia finalmente escrever essa história que tenho pra escrever, pensou a personagem, porque nas histórias que escrevia as personagens pensavam coisas alheias a seu universo e até contrárias, como no caso dessa que vinha tentando terminar já há algum tempo, sem sucesso, talvez porque as personagens dessa história tinham apego a falas sem fim, enredos atravessados, rupturas etc.

Lembrou a razão de ter escolhido Captcha como título da história, estava em dúvida se romance, conto ou novela, mas tinha certeza quanto ao nome e achava isso o máximo. Mais a certeza que o nome, porque lembrou também que já havia criado, gostado e esquecido outros tantos nomes. Aquele ficara. Era especial.

A trama rendia, a personagem tinha rosto e voz, os acontecimentos aconteciam diante dos olhos. Tinha história para cinquenta páginas ou mais, ia depender da maneira de contar.

A história em si, Captcha, era simples: uma garota escreve (o quê?) para entender outra garota. Um romance entre duas garotas.  Um típico amor em Captcha.  

Eu podia parar agora e olhar pros lados à procura de uma loja de conveniência. E entrar nessa loja para comprar cigarros depois de ter parado de fumar cinco anos atrás por causa de um problema com meu pai. E fumar apenas um cigarro, unzinho, e em seguida jogar a carteira fora, no lixo.

Mas talvez eu escolha fumar logo toda a carteira. O que a personagem faria?

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...