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Naquele ano eu perdi o meu sapato


Já que tenho me repetido, talvez tenha dito isso outras vezes aqui. Pior, cada vez que me repito, sinto que digo algo novo. Cada novidade é, assim, uma repetição de algo vivido entre o ano em que eu nasci e o de agora. Portanto, só posso acreditar que o que vem pela frente é sempre uma variação do que navega na mesma direção, mas em sentido contrário.

Eu não sei se fui claro, mas em 2009 eu tinha razões para acreditar que, se as coisas não estavam muito fáceis pra ninguém, e realmente não estavam, pra mim elas pareciam bem piores, o que talvez, vendo tudo de longe e um pouco mais velho, não passe disto: um borrão na vista.  

Talvez já tenha dito isso também. Nesse ano, o de 2009, coisas estranhas aconteceram, e uma delas foi que meu mp3 emperrou na mesma música. Foi o ano de uma música só. O ano em que eu pensei pela primeira vez: e seu eu pudesse morar no intervalo de um desses versos?  

Peço desculpas se agora estou aqui falando como alguém que viu a besta revelar o seu rosto amargo e seu hálito de fezes ao final do rio Nung, lá onde o sol é uma pálida lembrança de coisas que, se não aconteceram, poderiam ter acontecido. Peço desculpas, mas eu realmente acreditava que qualquer uma dessas notas era um convite e cada convite, uma janela aberta e fechada a um só tempo.    

Bom, essa música, não sei se já disse isso, é Hey, e eu adoro e tento compreender e às vezes até rejeito cada um dos seus dedos. 

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