Lembro quando ainda criança, no meio
da aula me perdia e só voltava a custo, às vezes porque a professora chamava
pelo nome, às vezes porque tocava o sino do recreio e todas as crianças saíam
em galope desenfreado. Muito tempo depois, já adulto e ainda desligado,
passaria a me referir a esses momentos como suspensão. Porque eram de fato
isso: um hiato no meio da rotina, um pequeno abismo gestado sob os pés por
força não da imaginação voluntária. Os abismos que criava eram de outra
natureza.
Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...