Lembro quando ainda criança, no meio
da aula me perdia e só voltava a custo, às vezes porque a professora chamava
pelo nome, às vezes porque tocava o sino do recreio e todas as crianças saíam
em galope desenfreado. Muito tempo depois, já adulto e ainda desligado,
passaria a me referir a esses momentos como suspensão. Porque eram de fato
isso: um hiato no meio da rotina, um pequeno abismo gestado sob os pés por
força não da imaginação voluntária. Os abismos que criava eram de outra
natureza.
Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...