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But I try

Foi só depois de escutar Modern love pela 50ª vez que percebi que o que estava fazendo não era exatamente a coisa certa e que afinal a repetição, ao contrário do que todos dizem, não leva à perfeição, mas a uma lenta e garantida agonia, e que no fim do túnel o que nos espera é no máximo um bilheteiro de cinema dizendo com um sorrisinho engraçado que o filme já começou.

E vejam que não se trata do tipo de agonia que a gente sente quando as coisas fugiram ao controle e agora resta somente olhar e esperar, olhar o furacão e esperar que no último segundo os fortes ventos abrandem e as tormentas se acalmem. Não é assim.

O tipo de agonia que a gente sente ao escutar Modern love pela  50ª vez é equivalente a sonhar correndo atrás de um ônibus e nunca conseguir fazê-lo parar.

Ou sonhar nadando e se afogar.

Sonhar atirando e não matar.

Sonhar saltando e não pular.

Sonhar beijando e não beijar.

Sonhar gozando e não gozar.

E por aí vai.

Impossibilidades, coisas assim. O tipo de agonia que escutar a mesma canção uma dezena de vezes significa ou que repetir a mesma palavra até que ela se desmanche, esfarele, e, uma vez esparramada na palma da mão, uma vez transformada em massa de modelar, se converta no que desejarmos, se o que desejarmos for suficientemente claro a ponto de conseguirmos esculpi-lo numa palavra natimorta.  

Se você faz isso, se você repete, se você tenta e tenta e tenta tanto quanto Bowie ou qualquer outra pessoa, então você sabe do que estou falando.

Ou pelo menos acredita que sabe do que estou falando, assim como, ao falar, me convenço de que sei precisamente o que quero.

É uma forma de sonhar. Impossibilidade. 

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